Eu poderia usar este espaço para falar das obras monumentais de Tolstói. “Anna Kariênina” e “Guerra e paz” são indicações que mostram esse autor como o grande romancista que é. Mas meu objetivo é mostrar o Tolstói que pensa a arte por dentro, aplicando na própria escrita o que defende como critério artístico.
Passando por uma ruptura existencial que reorganiza seu horizonte estético, pela formulação de uma teoria do contágio e da responsabilidade moral da criação, e chegando à força do sentimento compartilhável, as obras que cito aqui mostram a arte operando na vida comum, sem depender de grandiosidade épica.
Meu recorte desloca o foco “pop” do Tolstói clássico para o Tolstói radical e tardio, em cujos escritos forma, ética e estética organizam o terreno para uma discussão a respeito da arte como uma questão prática da vida.
Se a pergunta “O que é arte?” costuma soar como um debate de museu, nos textos abaixo é possível entender como Tolstói trabalha originalmente esse conceito: a arte transmite sentimentos entre pessoas e, por isso, tem consequências morais.
Indo do abalo íntimo de uma crise espiritual a uma formulação teórica, o ápice da sua resposta se dá na ficção. Em conjunto, estes livros mostram como a obra tardia de Tolstói busca uma escrita sincera e necessária, em que forma, estética e ética deixam de ser campos separados e respondem a perguntas que ressoam em todos nós: como viver? Para que serve a vida?
Liev Tolstói (Trad. Rubens Figueiredo, MC, 2017)
Antes de propor critérios para a arte, Tolstói expõe o próprio ponto de virada: uma crise radical de sentido que o faz desconfiar das justificativas estéticas da elite. Longe de ser um prefácio teórico, este texto funciona como um laboratório, visto que, ao narrar o colapso das certezas, ele testa uma escrita que não quer seduzir, mas dizer a verdade. O efeito artístico buscado é o do reconhecimento — o leitor se vê convocado a sentir junto e a repensar sua vida. Em “Uma confissão”, a arte já aparece como algo que precisa responder a uma pergunta ética: para que serve aquilo que comunicamos?
Liev Tolstói (trad. Bete Iorii, Nova Fronteira, 2024)
Este é o texto em que Tolstói sistematiza sua tese mais provocadora: arte é transmissão de sentimento; boa arte é aquela em que há sinceridade, clareza e sentimento humano compartilhado. Ele critica a “arte de classe”, o virtuosismo vazio e a lógica do mercado cultural. O ponto decisivo, para sua filosofia, é que a arte nunca é neutra: ela educa a sensibilidade coletiva, orienta desejos e reforça (ou combate) formas de vida. Ao ler este ensaio junto das narrativas, dá para perceber o teórico sendo cobrado pelo artista e o artista sendo disciplinado pelo teórico.
Liev Tolstói (trad. Boris Schnaiderman, Editora 34, 2009)
Se “O que é arte?” explica o mecanismo do contágio, esta novela mostra o contágio funcionando. Nela, a morte não é um tema grandioso; é um acontecimento que desmonta uma existência organizada por convenções, status e autoengano. O texto produz um tipo de emoção que Tolstói valorizaria: para além da excitação estética, a experiência da verdade — um sentimento que atravessa o leitor e o obriga a encarar a própria finitude, a compaixão e o peso de uma vida “correta” por fora e vazia por dentro. É como se a forma narrativa fosse desenhada para uma finalidade: infectar o leitor com lucidez moral, sem aquele texto doutrinário ou sermão mais direto.
Liev Tolstói (trad. Patricia N. Rasmussen, Principis, 2021)
Nesta parábola, Tolstói condensa sua aposta numa literatura acessível, direta e de alto impacto ético. O enredo é simples — e é exatamente aí que mora a complexidade: a eficácia artística, para ele, não depende de complexidade ornamental, mas da potência de um sentimento compartilhável. A história contagia o leitor com uma mistura de ironia, inquietação e clareza para falar sobre como o desejo por “mais” é uma armadilha espiritual e social. Em linguagem quase folclórica, Tolstói encena um princípio central de sua estética tardia: a forma serve à transmissão, e a transmissão deve tocar a vida comum.
Liev Tolstói (trad. Rubens Figueiredo, Companhia das Letras, 2020)
Se os textos anteriores são, em parte, “experimentos” e “teses”, este romance é a tentativa de unir ambas as coisas em larga escala: uma narrativa que denuncia injustiças institucionais, atravessa o sofrimento social e insiste na possibilidade de mudança interior. Em “Ressurreição”, o ideal de arte ética se mede pela ambição de seu alcance, indo além de comover e chegando a reorientar a percepção do leitor sobre culpa, responsabilidade e compaixão. Tolstói leva sua teoria às últimas consequências, buscando uma arte que seja, ao mesmo tempo, um exemplo de narrativa envolvente e uma intervenção na consciência — um contágio que não termina nas páginas do livro.
Eliana Moura Mattos é doutoranda em literatura russa pela USP (Universidade de São Paulo), pesquisando o conceito de arte em Tolstói e suas implicações éticas. Profissional do livro, conduz o Eliana Moura Estúdio e fundou a Editora Iásnaia, o perfil do Instagram @vagasderevisao e o Projeto Rodapé, voltado para profissionais que atuam no mercado editorial.