
Donald Trump fala com a imprensa na Casa Branca
Brendan Carr, presidente do FCC (Comissão Federal de Comunicações, na sigla em inglês) ameaçou revogar as licenças de emissoras de televisão por causa da cobertura da guerra no Irã. Ele afirmou no X no sábado (14) que a imprensa americana estava divulgando “boatos e notícias distorcidas”.
No mesmo dia, Donald Trump disse numa publicação na Truth Social que estava “remodelando a mídia” americana. Esse é mais um capítulo da ofensiva do governo Trump contra a imprensa do país. Ao longo dos últimos meses, o presidente dos EUA proibiu a cobertura de profissionais, xingou, ameaçou e processou jornalistas e veículos americanos.
Neste texto, o Nexo mostra as ações do governo para intimidar a imprensa nos Estados Unidos.
Carr compartilhou uma publicação de Trump no Truth Social com reclamações sobre a cobertura da mídia americana sobre o conflito com o Irã. O presidente citou reportagens publicadas pelos jornais NYT (The New York Times) e The Wall Street Journal sobre um ataque a aeronaves americanas na Arábia Saudita.
“As emissoras que divulgam boatos e distorções de notícias — também conhecidas como fake news — têm agora a oportunidade de corrigir o rumo antes da renovação de suas licenças”, afirmou Carr no X. “As emissoras devem operar em prol do interesse público e perderão suas licenças caso não o façam”.
O FCC é o órgão regulador americano para o setor de comunicação. Ele controla os “serviços sem fio fixos e móveis comerciais e não comerciais, televisão e rádio, satélite e outros serviços”, conforme a Lei de Comunicações de 1934.
Ou seja, jornais não são alvos de regulação da FCC, mas apenas emissoras locais de rádio e televisão, como afiliadas de grandes redes ou emissoras ligadas à NPR (Rádio Pública Nacional). Elas operam sob licença renovável a cada oito anos.
Carr publicou a mensagem de dentro de Mar-a-Lago, resort de luxo de Trump na Flórida, onde estava reunido com o presidente, segundo o canal americano CNN.

Pete Hegseth, secretário de Defesa ameriano, em entrevista a jornalistas em Varsóvia, na Polônia
Um dia antes, Pete Hegseth, secretário da Defesa americano, criticou a cobertura do canal CNN sobre o conflito no Oriente Médio, dizendo que esperava que o bilionário David Ellison controlasse logo a emissora.
David Ellison e seu pai, Larry, são donos da Paramount Skydance, que negocia a compra da Warner Bros. Discovery. Caso o negócio seja concretizado, a CNN, que pertence à Warner Bros., ficará sob seu controle. Eles têm boas relações com Trump.
O canal CBS, que pertence à Paramount, nomeou um ouvidor conservador para revisar o conteúdo do veículo.
Carr pressionou em setembro de 2025 o canal ABC, da Disney, e suas afiliadas a cancelar o programa do comediante Jimmy Kimmel por críticas a Trump — o que foi rapidamente revertido pela emissora. Ele também vem adotando medidas que limitam a liberdade dos canais de organizar sua programação e tem iniciado investigações diversas contra diferentes empresas de mídia.
A FCC, sob o comando de Carr, é a responsável por supervisionar a análise da fusão da Skydance com a Paramount.
O Departamento de Defesa americano proibiu a presença de fotojornalistas durante as entrevistas à imprensa de Hegseth e outras autoridades do órgão. O veto ocorreu após a equipe do secretário avaliar que as fotografias registradas em 2 de março do secretário eram desfavoráveis a Hegseth, segundo o jornal The Washington Post.
Essa atitude se soma a outra decisão autoritária do Departamento de Defesa, que proibiu em setembro de 2025 a publicação de informações sobre o Pentágono, sede do Departamento de Defesa americano, sem autorização prévia do órgão. O veto serve também para informações não consideradas sigilosas.
Os jornais que se recusaram a assinar o documento comprometendo-se a aceitar a nova regra perderam as credenciais de cobertura do Departamento. O NYT processou o Pentágono e Hegseth por violação da Primeira Emenda da Constituição americana, que garante as liberdades de expressão e de imprensa.
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Em resumo, a Primeira Emenda da Constituição dos EUA defende a liberdade de expressão ou de imprensa, assim como o direito de manifestação pacífica.
Essas restrições ocorreram após episódios embaraçosos sob a gestão de Hegseth, como a inclusão sem querer de Jeffrey Goldberg, da revista americana The Atlantic, num grupo do aplicativo Signal, onde membros do alto escalão do governo Trump discutiam os planos de ataques militares no Iêmen.
Houve também uma reportagem do NYT revelando que Elon Musk, agora ex-aliado de Trump, iria receber informações prévias sobre os planos das Forças Armadas dos EUA para o caso de uma guerra com a China.
Em fevereiro de 2025, pouco depois de assumir o segundo mandato, Trump proibiu o acesso da AP (Associated Press) à cobertura da Casa Branca porque a agência de notícias americana se recusou a chamar o Golfo do México de Golfo da América, como quer o presidente dos EUA. A AP processou a Casa Branca por violação à Primeira Emenda da Constituição. A ação ainda corre na Justiça.
No mesmo mês, a Casa Branca acabou com os postos dos jornais americanos na cobertura diária do presidente dos EUA, com o objetivo de dar lugar a influenciadores, podcasts e jornais favoráveis ao governo Trump. O Executivo federal também impôs que agora caberá a eles escolher quais jornalistas farão perguntas ao presidente americano. Nenhuma das decisões foi negociada com a WHCA (Associação dos Correspondentes da Casa Branca, da sigla em inglês).
Ao retornar à Casa Branca, Trump também tem aberto diversos processos judiciais contra jornais. O presidente americano entrou com inúmeros processos contra o NYT e seus jornalistas por não gostar da cobertura deles da corrida eleitoral de 2024. O republicano processou o jornal The Wall Street Journal por publicar uma carta escrita por ele em 2003 endereçada a Epstein, que revelava a proximidade entre os dois. Trump negou ter escrito.
Ele também passou a insultar ou criticar publicamente jornalistas quando não gostava das perguntas feitas por eles. O presidente americano chamou jornalistas de “porquinha”, de “estúpida” e questionou a capacidade cognitiva deles, como uma tática ignorante e diversionista para fugir dos questionamentos incômodos.
O assédio ganhou outras proporções quando jornalistas foram presos ou alvos de busca e apreensão do FBI, a polícia federal americana.
Em janeiro, agentes do FBI revistaram a casa de Hannah Natanson, repórter do Post, na Virgínia, e apreenderam telefone, notebooks e relógio dela, como parte de uma investigação sobre vazamentos de informações confidenciais do governo americano.
Dias depois, também em janeiro, Don Lemon, ex-apresentador do canal CNN, foi preso durante a cobertura dos protestos contra o ICE, agência americana de Imigração e Controle de Alfândega, em Minnesota, após a morte de dois cidadãos americanos. Ele foi solto no dia seguinte.

Jeff Bezos em apresentação da Blue Origin em Washington, nos EUA
Uma reportagem do NYT, publicada no sábado (14), trata das ações de Jeff Bezos no jornal The Washington Post. A publicação ocorre pouco mais de um mês após a demissão de cerca de 350 dos 800 funcionários do jornal, reduzindo as editorias de cidade, esportes e livros, além da maioria dos correspondentes internacionais.
Segundo o NYT, as intenções de Bezos mudaram nos últimos dois anos. Antes, o bilionário estava disposto a investir em jornalismo e tecnologia, mantendo-se discreto, mas depois passou a intervir mais diretamente no veículo. Bezos vetou um editorial em apoio à candidata democrata Kamala Harris para presidente em outubro de 2024, às vésperas da votação. Em fevereiro de 2025, ele promoveu uma mudança significativa na seção de opinião do jornal, que passou a publicar opiniões focadas apenas em liberdade individual e livre mercado.
“Alguns críticos das ações de Bezos no Post o acusam de tentar obter favores do presidente Trump para apoiar suas outras empresas. Ele é o presidente-executivo da Amazon, a principal fonte de sua fortuna de US$ 234 bilhões, é dono e está profundamente envolvido na empresa de foguetes Blue Origin, e recentemente criou uma startup de inteligência artificial, o Projeto Prometheus, onde atua como co-CEO”, escreveu o Times.
Will Creeley, diretor jurídico da Fundação para os Direitos Individuais e a Expressão, disse ao Post que a declaração de Carr era “perigosa”.
“O alerta autoritário de Brendan Carr — de que as emissoras correm o risco de perder suas licenças de transmissão por reportagens sobre a guerra no Irã que o governo não aprova — é ultrajante. Quando o governo exige que a imprensa se torne porta-voz do Estado sob ameaça de punição, algo está muito errado”, disse.
“Não se enganem: esses são ataques diretos à Primeira Emenda e fazem parte de uma marcha deliberada rumo ao autoritarismo. Nesse mundo, jornalistas são punidos por dizerem a verdade, espera-se que as empresas de mídia se submetam e a dissidência é tratada como uma ameaça”, afirmou o Comitê para a Primeira Emenda, grupo formado por artistas e ativistas em defesa da liberdade de expressão, em nota.