
Xi Jinping recebe Vladimir Putin em Pequim
O presidente da China, Xi Jinping, e o da Rússia, Vladimir Putin, destacaram na quarta-feira (20) a cooperação estratégica entre os dois países num encontro em Pequim. A reunião ocorreu menos de uma semana depois de o líder chinês receber o presidente americano, Donald Trump.
Pequim está se tornando rapidamente o ponto focal da diplomacia global, segundo o jornal chinês Global Times. Além de Trump e Putin, o país recebeu o presidente francês, Emmanuel Macron, em dezembro de 2025, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em janeiro de 2026. Todos são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Neste texto, o Nexo fala sobre as reuniões com Trump e Putin e o que elas significam no atual cenário geopolítico.
A primeira viagem de um presidente dos EUA à China desde 2017 foi marcada por uma honraria concedida a poucos chefes de Estado — a visita ao complexo Zhongnanhai, região que abriga escritórios governamentais e residenciais oficiais de altos funcionários do Partido Comunista desde os anos 1950.
Ao lado de Xi, Trump afirmou na sexta-feira (15) ter feito “acordos comerciais fantásticos”, sem dar detalhes. O presidente chinês disse que a visita foi histórica e os países entraram numa “nova relação bilateral, de estabilidade estratégica construtiva”.

Xi Jinping recebe Donald Trump em Pequim
Trump afirmou no mesmo dia ao canal americano Fox News que a China se comprometeu a comprar 200 aeronaves da Boeing. Após o anúncio, as ações da empresa caíram, diante da quantidade considerada aquém do que os analistas esperavam. Apesar disso, esse foi o primeiro grande pedido chinês da aeronave desde 2017.
A China confirmou na quarta-feira (20) a compra dos aviões. O governo chinês disse ainda que vai colaborar com os EUA para reduzir as tarifas entre os países. Também afirmou, sem dar detalhes, que trabalhará com os americanos para expandir o comércio bilateral de produtos agrícolas e garantir a estabilidade do fornecimento de minerais de terras raras nas cadeias de suprimentos globais.
No encontro, Xi voltou a demarcar Taiwan como linha vermelha, segundo a imprensa internacional. “Não quero que alguém declare Independência e, sabe, depois termos de viajar cerca de 15 mil km para travar uma guerra. Não é isso que procuro”, disse Trump à Fox News.
Os EUA e a China são as duas maiores potências econômicas, militares e nucleares do mundo. Também são adversários geopolíticos. Os dois países têm travado uma guerra tarifária desde o primeiro governo Trump, entre 2017 e 2021, mantida por Joe Biden, entre 2021 e 2025, e endurecida na segunda gestão do republicano, desde 2025.
A contenção chinesa é um dos poucos assuntos que unem os partidos Democrata e Republicano num país dividido politicamente como os EUA. Apesar disso, Trump já demonstrou admiração pelo homólogo chinês.
Enquanto Xi deseja estabilidade para expandir a influência chinesa pelo mundo por meio do comércio e de obras de infraestrutura, Trump quer manter a hegemonia dos EUA e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência americana de diversos setores da economia — como no fornecimento de minerais de terras raras, cuja cadeia produtiva é dominada pela China.
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O encontro entre os dois ocorreu em meio a um frágil cessar-fogo na guerra no Oriente Médio, iniciada após um ataque israelo-americano ao Irã em 28 de fevereiro. Em resposta, o governo iraniano fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A China era a principal importadora de petróleo do Irã e um dos principais destinos da commodity que passa pelo corredor marítimo.
Trump tem pedido reiteradas vezes a ajuda chinesa para resolver o conflito. O país, no entanto, resiste a se envolver no assunto.
Em 3 de janeiro, os EUA intervieram na Venezuela e capturaram o então presidente Nicolás Maduro, que está preso em território americano. Após a operação militar, Trump disse que os EUA vão controlar o petróleo do país sul-americano. A medida também foi considerada um golpe à economia chinesa, principal importadora do petróleo venezuelano.
A 25ª visita de Putin à China rendeu comparações com a de Trump na imprensa internacional. As duas recepções foram semelhantes.
Xi e Putin assinaram cerca de 40 acordos de cooperação, segundo o Kremlin. O encontro focou em energia, segurança e comércio.
Um dos principais objetivos do líder russo era convencer o chinês a construir um grande gasoduto entre os dois países. Conhecida como Força da Sibéria 2, a obra ligaria áreas de extração petrolífera na Sibéria ao noroeste da China, passando pela Mongólia. Por ora, nenhum acordo foi fechado. Xi teme que isso torne o seu país excessivamente dependente de um único fornecedor de energia.
A viagem à China também foi uma forma estratégica de Putin demarcar território após a reunião entre Xi e Trump na quinta (14) e sexta-feira (15), embora o Kremlin negue essa intenção.
“As relações China-Rússia avançaram passo a passo precisamente porque os dois países continuaram aprofundando a confiança política mútua e a coordenação estratégica com tenacidade inabalável, expandiram a cooperação com o objetivo de sempre alcançar novos patamares e defenderam a justiça e a equidade internacionais”, afirmou Xi, segundo o Global Times.
Assim como China e EUA, a Rússia é uma potência militar e nuclear. O país, todavia, lida com dificuldades econômicas desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Dias antes da ofensiva militar de Putin, os governos russo e chinês anunciaram uma parceria “sem limites”. Apesar disso, a China decidiu não entrar diretamente no conflito.
“A convergência entre China e Rússia não é total. Há limites nessa parceria. A China insiste que quer ser vetor e paz no mundo”, afirmou ao Nexo Evandro Menezes, professor convidado de direito internacional da Universidade Politécnica de Macau, na China.
Com a guerra, a Rússia se tornou cada vez mais dependente econômica, diplomática e tecnologicamente da China. Ao mesmo tempo, a guerra no Irã e a intervenção americana na Venezuela — dois grandes fornecedores de petróleo aos chineses — reforçaram a posição dos russos como fornecedores energéticos para Pequim.
As visitas de Trump e Putin a Xi em menos de uma semana produziram poucos resultados concretos. No entanto, sinalizaram que Pequim tem se tornado peça central na diplomacia entre grandes potências, segundo Vinícius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado).
Vieira também destacou ao Nexo que o encontro entre Xi e Trump sinaliza para os EUA que a China já não depende tanto do mercado americano. Ao mesmo tempo, a reunião com Putin mostra para a Rússia que, se há algum canal de interlocução do país com o mundo, ele passa por Pequim.
Putin e Trump, que lideram potências militares, fracassaram em suas guerras na Ucrânia e no Irã, e isso dá à China a sensação de proeminência, segundo Vieira.
“A China não tem interesse em que esses conflitos se prolonguem demasiadamente. Ela percebe que a instabilidade internacional atrapalha seus interesses comerciais”, acrescentou Menezes.
“A China quer mostrar o contraste entre a sua diplomacia e a dos EUA. Quer mostrar que é um parceiro mais estável, previsível e seguro”
Evandro Menezes
professor convidado de direito internacional da Universidade Politécnica de Macau, na China, em entrevista ao Nexo
Menezes afirmou que, enquanto países do Ocidente se distanciaram diplomaticamente da China nas últimas décadas, em parte por pressão americana, Moscou e Pequim aprofundaram as relações. Hoje, os dois países têm um nível elevado de integração e confiança.
“O Ocidente se rendeu à evidência de que terá que conviver com uma China poderosa”, acrescentou.