Como os EUA se movem de olho nas terras raras brasileiras

Extração de minerais de terras raras em Minaçu, em Goiás

Extração de minerais de terras raras em Minaçu, em Goiás

A mineradora brasileira de terras raras Serra Verde anunciou na quinta-feira (5) que firmou um contrato de financiamento com o DFC (Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional), banco estatal dos Estados Unidos.

O trato dá ao governo dos EUA o direito de adquirir uma participação minoritária na companhia, que opera no estado de Goiás.

US$ 565 milhões

foi o valor do financiamento do DFC anunciado pela Serra Verde

Neste texto, o Nexo explica o negócio entre a mineradora brasileira e a instituição americana, contextualiza o potencial brasileiro em minerais de terras raras e fala sobre a corrida por esses recursos no mundo.

O negócio dos EUA em Goiás

A Serra Verde disse em comunicado que utilizará o financiamento dos EUA para refinanciar empréstimos existentes em condições mais favoráveis ​​e expandir sua capacidade produtiva.

A companhia havia anunciado as negociações para um financiamento de US$ 465 milhões em novembro de 2025. Agora, o valor aumentou. O governo dos EUA também terá o direito de adquirir ações da empresa, o que não havia sido informado anteriormente.

A Serra Verde pertence a dois fundos de investimento — um americano e outro britânico — e grande parte da exportação de 2025 foi parar na China.

A mina da empresa brasileira contém uma alta proporção de minerais de terras raras pesados, como disprósio e térbio, além de neodímio e praseodímio — que também são terras raras — e outros minerais críticos.

Minerais de terras raras é um termo para se referir a 17 elementos químicos semelhantes de difícil extração que são essenciais para componentes de alta tecnologia, como as indústrias automotivas, eletrônicas, de energias renováveis, de defesa e aeroespaciais.

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A Serra Verde é a única mineradora de terras raras em operação no Brasil. Ela começou a operar na cidade de Minaçu, em Goiás, em 2024, e ainda não atingiu sua produção total, que deve ser de 6.500 toneladas de óxido total de terras raras até o fim de 2027.

Além dos EUA, outros países estão interessados nos minerais críticos do Brasil. A Austrália demonstrou interesse em financiar com aporte total de US$ 100 milhões dois projetos de minerais de terras raras em Minas Gerais no valor de US$ 100 milhões. Já a China investiu US$ 2 bilhões numa empresa brasileira de mineração que explora estanho no Amazonas.

As reservas e o potencial brasileiro

Atualmente, a China domina o mercado mundial de minerais críticos e de terras raras, controlando 68% de sua extração e 92% de seu processamento. O Brasil, com a segunda maior reserva do mundo, tem despertado o interesse americano, que entrou atrasado nessa disputa geopolítica.

Minerais estratégicos

A maior parte das reservas de terras raras brasileiras está concentrada nos estados de Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe, segundo o SGB (Serviço Geológico do Brasil), da Agência Nacional de Mineração.

23%

das reservas mundiais de minerais de terras raras estão no Brasil, segundo dados do USGS (Serviço Geológico dos EUA)

Apesar do grande potencial mineral brasileiro, o país produziu, em 2024, apenas 20 toneladas de terras raras — ou seja, menos de 1% da produção mundial, que foi de 390 mil toneladas.

O Brasil também tem reservas de outros minerais críticos. Segundo o SGB, o país é:

O país ainda não tem um marco legal de terras raras, mas uma legislação de 1967 para todos os recursos minerais, o Código de Mineração

Em julho de 2025, Gabriel Escobar, encarregado de negócios da Embaixada americana em Brasília, demonstrou interesse nos minerais estratégicos brasileiros, o que levou o Congresso Nacional a articular propostas para criar um marco regulatório específico.

Tanto o Senado Federal, com o projeto de lei n° 4.443/2025, quanto a Câmara dos Deputados, com o PL nº 2.480/2024 — cuja urgência foi aprovada em dezembro de 2025 —, articulam a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou na terça-feira (3) que a Casa vai priorizar ainda no primeiro semestre de 2026 a aprovação do marco legal.

Em paralelo, o Ministério de Minas e Energia vai subsidiar a elaboração da Estratégia Nacional de Terras Raras. A iniciativa busca apoiar a formulação de diretrizes, metas e instrumentos que orientem o desenvolvimento organizado da cadeia de terras raras no país.

A corrida no mundo

Os EUA estão buscando formar alianças estratégicas sobre minerais críticos. Na quarta-feira (4), representantes de mais de 50 países e blocos — entre eles, União Europeia, Reino Unido, Japão, Austrália e Brasil — se reuniram em Washington para tratar do assunto.

A ideia da aliança é reformular o mercado global de minerais críticos e terras raras hoje dominado pela China.

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou na segunda-feira (2) o Projeto Vault, um plano para construir um estoque estratégico de minerais críticos, expandir a capacidade doméstica de processamento de terras raras e garantir contratos de fornecimento de longo prazo com fabricantes.

US$ 12 bilhões

é o valor do disponível para o projeto, sendo US$ 10 bilhões em financiamento inicial do Exim, o Banco de Exportação e Importação dos EUA, e US$ 2 bilhões privados

Em paralelo, os EUA firmaram compromissos em separado com a União Europeia, o Japão, o México e a Argentina.

Em outubro de 2025, os EUA e a Austrália fecharam um acordo sobre minerais críticos e de terras raras no qual se comprometem a investir US$ 1 bilhão cada em projetos conjuntos na área nos próximos seis meses.

Além disso, a Austrália anunciou em 30 de janeiro que criará uma reserva de US$ 840 milhões para minerais estratégicos, e o Japão extraiu com sucesso minerais de terras raras em águas profundas da sua zona marítima.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve se reunir com Trump em Washington em março. A expectativa é que o assunto esteja na pauta.

Em 16 de janeiro, num encontro com Lula no Rio de Janeiro, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, destacou a importância das matérias-primas críticas no acordo entre União Europeia e Mercosul, assinado um dia depois.

“Esse acordo irá nortear a nossa cooperação em projetos de investimento conjunto em lítio, níquel e terras raras. Isso é fundamental para as nossas transições digital e limpa, bem como para a nossa independência estratégica num mundo onde os minerais tendem a tornar-se um instrumento de coerção”, disse.