
A cada eleição, as pesquisas de intenção de voto ajudam a construir a história de um pleito. Elas oferecem retratos de diferentes momentos da disputa, e dão pistas de como cada candidato pode crescer até o dia da ida à urna.
Em 2026, a eleição presidencial no Brasil se desenha com dois candidatos principais: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As pesquisas indicam um cenário acirrado. Levantamento divulgado em 15 de abril pela Quaest em parceria com a plataforma de investimentos Genial mostrou Flávio numericamente à frente de Lula pela primeira vez em um quadro de segundo turno do instituto: 42% a 40% em intenção de votos.
Disputa acirrada

A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Lula vence em todos os outros cenários contra candidatos de direita considerados pela pesquisa Quaest, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).
Essas discrepâncias entre os números apresentados por pesquisas eleitorais costumam gerar dúvidas. Entre os motivos para isso estão as metodologias adotadas pelos institutos, a ordem das perguntas e como elas foram feitas para os eleitores.
Para responder a possíveis dúvidas do eleitorado, o Nexo fez 12 perguntas sobre o processo de pesquisas eleitorais para especialistas na área. São eles:
Qualquer empresa pode fazer uma pesquisa eleitoral. No entanto, para que ela seja divulgada, deve ser previamente registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). É possível consultar os registros no site do tribunal, com informações sobre o contratante, o número de entrevistados, o valor gasto e a metodologia utilizada pelo instituto.
Pimentel afirmou que o registro é obrigatório em anos eleitorais. “O ambiente mais transparente permite que os pesquisadores, jornalistas e o próprio eleitor avaliem a qualidade das pesquisas”, disse o professor da FESPSP.
Existem diferentes motivos para que um instituto faça uma pesquisa eleitoral. Pode ser encomendada por partidos, por exemplo, para avaliar o potencial de candidaturas, ou para identificar temas que merecem destaque na estratégia de mídia e de redes sociais. Pode ser usada também para colher insumos para decidir qual cargo determinado político deve concorrer. Um levantamento pode também ser produzido por interesse jornalístico, científico ou financeiro.
A primeira etapa de uma pesquisa eleitoral é a definição de um plano amostral – ou seja, uma estratégia para ter uma amostra “que busca reproduzir a composição da população em termos de sexo, idade, escolaridade, região”, segundo Pimentel.
Na sequência, há a construção de um questionário, a coleta de dados e a posterior ponderação dos números em relação à população total – para garantir que nenhum grupo tenha peso maior ou menor na amostra, na comparação com a população.
A metodologia de uma pesquisa pode fazer com que ela dê resultados diferentes de outras, mesmo com amostras semelhantes. A forma de abordagem é um exemplo disso:
Além disso, as entrevistas presenciais podem ser feitas de duas formas: domiciliar ou em ponto de fluxo. A Quaest faz pelo primeiro modo, enquanto o Datafolha, por exemplo, segue o segundo.
O preço cobrado pelos institutos para produzir uma pesquisa aumenta com a quantidade de entrevistados. Por exemplo, a de número BR-09285/2026, que abriu este texto, custou R$ 465 mil e ouviu um total de 2.004 entrevistados.
De acordo com Carrato, as pesquisas eleitorais seguem uma metodologia científica para definir os entrevistados. “Em geral, as enquetes focam em pontos específicos, sem preocupação com a amostragem”, afirmou a professor da UFMG.
Semelhante ao que acontece em reality shows como o BBB (Big Brother Brasil), Pimentel afirmou que o engajamento dos grupos de eleitores influencia nos resultados de enquetes e gera vieses. “Não têm validade estatística e não devem ser interpretadas como retrato de opinião e, por isso, nem podem ser registradas no TSE”, disse o professor da FESPSP.
Os institutos de pesquisa costumam adotar para os levantamentos de intenção de voto uma metodologia com a chamada “amostra não probabilística”.
Esse tipo de amostragem é feita por cotas: os entrevistadores devem abordar um certo número de pessoas que se encaixam em determinadas variáveis, como gênero, faixa etária, renda e escolaridade. “Ao controlar a amostra por essas variáveis sociodemográficas, espera-se pelo menos que qualquer problema de seleção que os entrevistadores possam ter [como recusa em atendê-los]”, disse Nishimura.
A escolha por esse modelo, de acordo com o estatístico da Universidade de Michigan, é por ele ser mais barato e rápido do que a amostra probabilística, que escolhe os entrevistados a partir de uma série de sorteios.
El-Dash afirmou que é preciso fazer ponderações para extrapolar os valores da amostra para a população geral. “Depois de fazer a pesquisa, você adapta os resultados da sua pesquisa para características demográficas conhecidas como sexo, idade, escolaridade. Assim, você faz com que essa pesquisa seja igual [em características] à população conhecida”, afirmou o estatístico.
A pesquisa estimulada é aquela em que todos os candidatos são apresentados para os entrevistados – os nomes são normalmente dispostos em formato de disco ou apresentados em ordem aleatória. Já a espontânea busca captar o candidato que o eleitor já tem em mente, sem precisar de uma lista das opções – o que pode indicar uma intenção mais consolidada de voto.
A espontânea “tende a subestimar candidatos menos conhecidos, enquanto a estimulada distribui melhor as intenções de voto”, de acordo com Pimentel. Já segundo Nishimura, a espontânea tende a apresentar um maior número de indecisos: “De cabeça, a pessoa talvez não saiba ou não pense em ninguém [para votar]”
A pesquisa Genial/Quaest de abril é um exemplo dessa diferença. Lula e Flávio Bolsonaro lideram a intenção de votos no primeiro turno nos dois tipos de perguntas. Mas a estimulada dá 37% para o atual presidente e 32% para o senador pelo Rio de Janeiro, enquanto o “placar” da espontânea é de 19% contra 13% em favor do petista. A maioria (62%) dos respondentes da pesquisa espontânea ainda estava indecisa.
Maioria de indecisos

Nesse caso, até o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inelegível, foi citado. “O respondente pode responder alguém que esteja na cabeça dele, geralmente personalidades conhecidas, mas pode falar um nome que nem é pré-candidato”, afirmou El-Dash. Segundo o estatístico, a espontânea “não simula a situação real de voto”.
A margem de erro é uma ferramenta de precisão das pesquisas eleitorais, segundo Pimentel. “Como nós estamos trabalhando com uma amostra e não com a população toda, existe sempre uma variação possível. Então, essa margem de erro indica o intervalo dentro do qual o resultado real provavelmente está considerando em um determinado nível de confiança”, disse o professor da FESPSP.
O tamanho da margem de erro varia de acordo com a quantidade de entrevistados na pesquisa. Normalmente, uma amostra de 1.000 pessoas tem cerca de 3 pontos percentuais de margem de erro; para 2.000, são cerca de 2 pontos percentuais.
Outra informação que costuma aparecer é o intervalo de confiança. “É uma conta que te diz qual percentual de vezes conteria o resultado real da pesquisa, se você repetisse aquele procedimento infinitas vezes”, disse El-Dash.
95%
é o intervalo de confiança tradicional das pesquisas eleitorais
O estatístico explica: “Um determinado candidato vai ter 50% dos votos mais ou menos três pontos percentuais [de margem de erro], em um intervalo de 47% a 53%. Isso significa que em 95% das vezes que selecionar uma amostra com as mesmas características, ela vai ter a intenção de voto real”.
A margem de erro também varia de acordo com o patamar de intenção de voto de cada candidato. Por exemplo, um candidato que pontua em 40% pode oscilar entre 38% e 42%. Mas, estatisticamente, um candidato que pontua em 1% não pode ficar entre -1% e 3% – o seu espaço para oscilação estatística é menor. Por convenção, adota-se a margem de erro máxima de uma pesquisa como a “margem de erro” do levantamento.
As metodologias adotadas por cada instituto de pesquisa podem gerar resultados diferentes entre si. Mudanças no tamanho e na seleção da amostra, o método da coleta e a própria ordem do questionário podem influenciar nos números finais.
Nishimura afirmou que agregadores de pesquisa podem ser uma boa forma de entender o cenário real. “Os pontos fracos metodológicos de cada uma são suplementados pelos pontos fortes e se compensam”, disse o estatístico da Universidade de Michigan. Ele continua: “A média das pesquisas tende a apresentar uma visão melhor do que o eleitorado está pensando naquele momento”.
No pleito eleitoral, os votos válidos são aqueles que excluem quem votou em branco ou nulo. Para um presidente ser eleito, ele deve somar 50% mais um dos votos nominais – ou seja, dos votos destinados a algum dos candidatos.
Nas pesquisas eleitorais prévias, no entanto, a métrica de votos válidos retira uma parcela importante do eleitorado: os indecisos e quem irá se abster. “Ela simula o cenário mais próximo da urna, redistribuindo apenas entre os candidatos que efetivamente disputam os votos, excluindo aqueles que não citaram qualquer nome na pesquisa”, afirmou Pimentel.
A alta quantidade de candidaturas para os cargos do Legislativo restringem a realização de pesquisas eleitorais. Em 2026, as quase 156 milhões de pessoas do eleitorado apto a votar vão eleger, ao todo, 54 senadores, 513 deputados federais e 1.035 deputados estaduais, além de 24 cadeiras na assembleia legislativa do Distrito Federal.
Segundo El-Dash, a complexidade de uma pesquisa para o Legislativo impede as realizações: “Você tem um número muito grande de candidatos. É difícil você fazer uma intenção de voto estimulada com tantas opções, porque as pessoas não conseguem ouvir todos os nomes dos deputados federais, por exemplo, que são do seu estado”. O estatístico afirmou ainda que “são cargos de menor relevância para o eleitor comum”, em relação ao presidente da República e aos governadores.
A pluralidade de nomes também faz com que a decisão de voto seja tomada mais perto da data do pleito, afirmou Pimentel. “O que aumenta a volatilidade e reduz ainda mais a previsibilidade do voto no caso dos cargos legislativos no Brasil”, disse o professor da FESPSP.
As discussões sobre a influência das pesquisas eleitorais não são novidade. Em 2006, o STF (Supremo Tribunal Federal) declarou inconstitucional um projeto de lei que vedava a divulgação dos resultados a partir de 15 dias antes do pleito. O então ministro e relator do caso, Ricardo Lewandowski, afirmou que o artigo aprovado pelo Congresso restringiria o acesso dos eleitores à informação.
De acordo com o TSE, pesquisas podem ser divulgadas até o dia anterior da eleição, desde que registradas até seis dias antes do pleito – em 2026, a data limite no primeiro turno é dia 28 de setembro.
Pimentel disse que as pesquisas eleitorais podem impactar os indecisos. Segundo o professor da FESPSP, a indecisão gera um efeito manada no eleitor: “Ao saber quem está na frente nas pesquisas, ele pode apoiar esses candidatos”.
Em cenários acirrados entre dois candidatos, as pesquisas de opinião pública podem promover o voto útil. “A pessoa pensa em votar no candidato A, mas vê que o B e C estão na frente nas pesquisas. Ela pode decidir votar no B por ser ideologicamente semelhante ao que pensa e não querer desperdiçar voto”, afirmou Nishimura.
Para Carrato, as pesquisas eleitorais passaram a ser intrínsecas às campanhas políticas. “Já foi o tempo em que serviam apenas para orientar os candidatos ou como referência para obter recursos. As pesquisas eleitorais agora fazem parte do kit de marketing”, disse a professora da UFMG.
Mais do que influenciar os candidatos, El-Dash afirmou que as pesquisas afetam o ânimo dos integrantes da campanha eleitoral. Além disso, o estatístico disse que “os candidatos que vão participar dos debates estão sendo definidos pelos números das pesquisas”.
As pesquisas eleitorais não são instrumentos de previsão. Elas são, na realidade, um ponto de partida para analisar as eleições, servindo como um termômetro da opinião pública. “É sempre uma fotografia do momento. Isso a torna vulnerável a uma série de condicionantes”, disse Carrato.
No primeiro turno das eleições de 2022, o desempenho de Jair Bolsonaro foi surpreendente em relação ao que as pesquisas traziam. O último Datafolha, de 29 de setembro – três dias antes do pleito –, mostrou que ele levaria 36% dos votos válidos. O resultado final foi de 43,20% dos votos válidos.
“Divergências grandes não são a regra, o normal é uma grande quantidade de acerto das pesquisas. Mas quando elas ocorrem, geralmente tendem a refletir algumas mudanças no comportamento do eleitor ou limitações na modelagem”, disse Pimentel.
O “voto envergonhado”, em que o cidadão omite qual o candidato de sua preferência por pressão social, é um dos possíveis motivos para essa diferença. Um exemplo aconteceu nas eleições para a Prefeitura de São Paulo, em 1985.
Na ocasião, os institutos de pesquisas davam que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) seria eleito, enquanto pesquisas informais davam o favoritismo para Jânio Quadros. No final, Jânio foi eleito, fazendo um gesto de limpar a poltrona que o adversário havia sentado e posado para fotos antes do pleito. “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”, disse o ex-presidente à imprensa.
De acordo com Nishimura, a questão do voto útil também é uma explicação para essa diferença: “Se as pessoas também estão utilizando as pesquisas para se informar sobre em que elas vão votar, não tem como esperar que elas reflitam o resultado da urna”.
Nishimura disse que não há uma regulamentação sobre quem pode divulgar pesquisas eleitorais nos Estados Unidos, diferente das regras do TSE. As entrevistas são feitas, majoritariamente, pela internet ou por telefone, com quase nenhuma face a face.
No geral, os americanos entrevistados são selecionados aleatoriamente a partir de conjuntos de dados ponderados por gênero, educação, raça, idade, filiação partidária e região com base em parâmetros do Censo americano, de pesquisas de boca de urna e de registro eleitoral.
Por causa do colégio eleitoral, os métodos utilizados pelos entrevistados são diferentes, focando mais em pesquisas estaduais. “Em geral, o candidato que vence no voto popular naquele estado recebe todos os votos do colégio eleitoral”, afirmou o estatístico da Universidade de Michigan. No caso de pesquisas nacionais, não há distinção em relação aos pesos de cada estado.
Além disso, a não obrigatoriedade do voto obriga os institutos a criarem a métrica de “likely voter”, aquele eleitor que é mais provável de exercer o voto. “No Brasil, como o voto é obrigatório, você acaba tendo essa dificuldade de saber [com antecedência] quem vai ou não votar”, afirmou Pimentel.