
Imagem de divulgação do reality “America’s Next Top Model”
A minissérie documental “Reality Check: Inside America’s Next Top Model”, que estreou na segunda-feira (16) na Netflix, pretende abordar as problemáticas de “America’s Next Top Model”, reality show de sucesso que foi ao ar entre 2003 e 2018.
Apresentado pela supermodelo Tyra Banks, o reality estreou com o objetivo de revelar os bastidores do mundo da moda. Ao longo de suas temporadas, no entanto, a produção recebeu críticas por reforçar estereótipos e ignorar o bem-estar das participantes.
Neste texto, o Nexo aborda a fama de “America’s Next Top Model”, fala de que maneira o programa envelheceu na opinião pública e mostra como a minissérie da Netflix responde às críticas.
Tyra Banks era uma das mais famosas supermodelos dos Estados Unidos nos anos 2000. Na época, ela havia aparecido em diferentes videoclipes, séries, filmes e capas de revistas, além de ter sido a primeira modelo negra a se tornar uma das Angels (modelo contratada com exclusividade) da Victoria’s Secret.
Em 2003, ela se juntou ao produtor Ken Mok para desenvolver um reality show para a TV com o objetivo de descobrir, a cada ciclo (como é chamada a temporada), qual das participantes se tornaria a próxima modelo do momento.
A cada episódio, as jovens faziam ensaios fotográficos temáticos. Elas eram maquiadas e competiam para tirar a melhor foto, além de passarem por testes de passarela e atuação. O reality também mostrava como era o cotidiano das futuras modelos, que moravam juntas no período das gravações.
Um conjunto de convidados (com experiência no mundo da moda, como as ex-modelos Twiggy e Kimora Lee Simmons) era responsável por julgar as fotografias. Além de Banks, integravam o programa o instrutor de passarela J. Alexander, o diretor criativo Jay Manuel e o fotógrafo Nigel Barker.
100 milhões
é a quantidade estimada de pessoas que acompanharam “America’s Next Top Model” em cerca de 170 países
Após 15 anos no ar, “America’s Next Top Model” terminou em 2018. A produção inspirou cerca de 20 spin-offs em outros países, incluindo um brasileiro, o “Brazil’s Next Top Model”, que foi ao ar entre 2007 e 2009.
Mesmo após o fim de “America’s Next Top Model”, o reality atraiu críticas, à medida que novas gerações passaram a ter contato com os episódios.
Uma das cenas mais famosas da produção, que chegou a virar meme, mostra Tyra Banks gritando com uma participante do quarto ciclo, Tiffany Richardson, durante sua eliminação do programa.
“Estava torcendo por você. Nós todos estávamos torcendo por você. Como você se atreve? Aprenda algo com isso”, disse.
As críticas às modelos também miravam seus corpos.
Duas participantes do sexto ciclo, Joanie Dodds e Dani Evans, por exemplo, foram pressionadas a passar por cirurgias dentárias durante o reality. Evans, que tem um espaço entre os dois dentes da frente, se recusou a fazê-lo. Banks respondeu: “você realmente acha que vai aparecer na capa de uma revista com um espaço na sua boca?”.
Em 2020, a ex-apresentadora afirmou no X que estava vendo “postagens sobre a insensibilidade de alguns momentos de ‘ANTM’ [sigla do reality] e concordo com vocês. Olhando para trás, essas realmente foram escolhas erradas”.
Os ensaios fotográficos do reality também foram alvos de críticas.
Num episódio do quarto ciclo, por exemplo, os produtores pediram que as participantes “representassem outras raças ou etnias”, usando maquiagens, roupas e cabelos diferentes.
Uma modelo branca fez blackface e usou um penteado afro, enquanto uma participante negra teve que representar uma mulher nativo-americana.
Em outro episódio, as participantes precisavam encenar vítimas de assassinato. Uma delas, Dionne Walters, afirmou, em entrevista à série da Netflix, que a produção a obrigou a fingir que havia sido baleada, mesmo sabendo que sua mãe havia passado pela mesma situação.
A minissérie sobre o reality também apresenta dois casos de violência sexual gravados pela equipe de filmagem. Em ambos, as participantes afirmaram que não receberam o apoio necessário da produção.
A nova minissérie da Netflix foi produzida como continuação do podcast “Curse of: America’s Next Top Model”, lançado em 2025, que explora os efeitos negativos e positivos do reality para as participantes.
“A partir de conversas com dezenas de ex-participantes, produtores e membros da equipe, ‘Curse of: America’s Next Top Model’ explora o que aconteceu nos bastidores de um dos reality shows mais icônicos e problemáticos da nossa geração”, diz o podcast na sua apresentação.
Banks e a equipe do programa evitaram abordar os problemas do reality ao longo dos anos.
Em entrevista ao programa Entertainment Tonight, em 2020, a modelo disse se arrepender de algumas das decisões do programa. Já na minissérie da Netflix, ela afirmou que “America’s Next Top Model” era “muito, muito intenso”, mas que “vocês [público] pediam por aquilo. Então nós aumentávamos a intensidade, cada vez mais e mais”.
Para a crítica Elle Hunt, que escreveu sobre a minissérie no jornal The Guardian, a Netflix acerta ao mostrar que muitas participantes expressaram descontentamento com a maneira como eram tratadas no programa, mas foram manipuladas ou pressionadas a aceitar algumas situações.
“‘Reality Check’ acerta ao concluir que as ex-participantes estão muito mais felizes e com aparência mais saudável do que nos tempos de ‘Top Model’, e demonstram uma clareza impressionante sobre o impacto que o programa teve em suas vidas. No entanto, o documentário faz um desserviço a elas ao insistir em retratar o reality como um produto de sua época e atribuir as críticas apenas à geração Z ‘woke’ [termo associado ao ideário afeito à justiça de raça e de gênero]”, escreveu.
Já para Danielle Lindemann, autora de “True Story: What Reality TV Says About Us” (“História real: o que os reality shows dizem sobre nós”), “America’s Next Top Model” foi um produto de sua época.
“Acho válido dizer: ‘Sabendo o que sei agora, assistir a isso não me dá mais o mesmo prazer, porque reconheço seus malefícios’. Isso não significa que todos que participaram do programa sejam monstros — apenas que temos uma perspectiva diferente para analisá-lo agora. Dito isso, há alguns aspectos problemáticos do reality que deveriam ter chamado nossa atenção, mesmo na época”, afirmou em entrevista à BBC.