
Imunizante é o primeiro já aprovado para conter chikungunya
A primeira vacina do mundo contra a chikungunya começou a ser aplicada no Brasil na segunda-feira (2), em Mirassol (SP). As doses fazem parte de um projeto-piloto para avaliar o impacto do imunizante sobre a dinâmica de transmissão da doença.
A chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada de mosquitos Aedes aegypti. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou a vacina em abril de 2025, mas ainda não há previsão para sua incorporação ao SUS (Sistema Único de Saúde).
9
cidades brasileiras, além de Mirassol (SP), receberão testes da vacina
Neste texto, o Nexo explica como funciona o projeto de vacinação contra a chikungunya e qual o cenário da doença.
A ideia do projeto-piloto de imunização contra a chikungunya é entender se a vacina produzirá uma resposta imunológica suficiente para conter a transmissão da doença em áreas com maior circulação do vírus.
Para isso, o Instituto Butantan e o Ministério da Saúde selecionaram dez cidades com base em critérios epidemiológicos e estrutura para os testes. “É como um estudo fase 4, e usaremos a vacina num número de cidades para ter um entendimento melhor do uso em campo”, disse o diretor do Butantan, Esper Kallás, ao jornal O Globo em abril de 2025.
A fase 4 de estudos clínicos avalia a segurança de um produto por mais tempo e em um número maior de voluntários do que nas fases anteriores, observando possíveis novas reações adversas.
18 a 59
anos é a faixa etária que poderá receber o imunizante
Mirassol, no interior de São Paulo, foi a primeira cidade a receber a vacina na segunda-feira (2). De acordo com um monitoramento do governo federal, o município registrou 833 casos de chikungunya em 2024, ante apenas um no ano anterior.
112
casos prováveis foram registrados em 2025 em Mirassol
Até a publicação desta reportagem, o Ministério da Saúde ainda não havia confirmado ao Nexo o calendário de vacinação nas outras nove cidades participantes. São elas:
O Butantan diz que irá monitorar os casos positivos e negativos de chikungunya nos municípios e comparar os dados entre vacinados e não vacinados. Equipes dos postos de saúde locais também vão monitorar pessoas interessadas em participar dos ensaios clínicos da vacina.
Em Mirassol, os testes serão acompanhados por pesquisadores da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto) e pelo Hospital de Base de São José do Rio Preto para produção de um inquérito sorológico – uma análise no nível de defesa da população em relação à doença.
“A vacina, sozinha, não resolve tudo. Mas, quando ela é aplicada em um território monitorado, com acompanhamento científico rigoroso, temos a chance de produzir evidências sólidas para orientar políticas públicas em escala nacional”
Maurício Lacerda Nogueira
virologista e professor da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), em entrevista a jornalistas
A vacina aplicada no projeto piloto é a IXCHIQ (vacina Chikungunya recombinante atenuada), do Butantan. Ela é administrada em dose única em pessoas acima de 18 anos que estejam em áreas com maior exposição ao vírus.
A solução utiliza o vírus atenuado para estimular uma resposta imunológica do organismo. Estudos clínicos publicados na revista científica The Lancet comprovaram a segurança da vacina e sua capacidade de gerar anticorpos.
98,9%
dos voluntários que receberam a IXCHIQ durante os ensaios clínicos produziram anticorpos neutralizantes; a pesquisa teve 4.000 participantes
A Anvisa aprovou o imunizante em abril de 2025, assim como agências sanitárias dos Estados Unidos, da União Europeia, do Canadá e do Reino Unido.
A solução é fabricada pela empresa IDT Biologika GmbH, na Alemanha, e chegou ao Brasil pela parceria entre a farmacêutica francesa Valneva e o Butantan – que pretende produzir a vacina no futuro.
500 mil
doses da vacina serão doadas pela Valneva ao Ministério da Saúde para viabilizar o projeto-piloto
Mulheres grávidas ou que estejam amamentando, pessoas imunodeficientes ou imunossuprimidas ou aqueles com comorbidade mal controlada são contraindicados a receber o imunizante.
O vírus chikungunya chegou ao Caribe em 2013 e se disseminou pelo resto das Américas a partir de 2014. No Brasil, o vetor responsável pela transmissão da doença é o Aedes aegypti – mosquito que também transmite dengue, zika e febre amarela.
A chikungunya pode causar febre de início súbito, mal-estar, dor de cabeça, nos músculos e nas articulações dos pés e das mãos, além de manchas vermelhas na pele. Em alguns casos, o vírus pode chegar ao sistema nervoso central e causar complicações neurológicas.

Mosquito Aedes aegypti, que tabém transmite a chikungunya
A doença pode evoluir para a fase crônica, em que as dores nas articulações perduram por anos. Uma pesquisa da Universidade George Washington, dos EUA, mostrou que uma em cada oito pessoas com chikungunya apresentou o quadro por três anos depois da infecção.
O Brasil é o país das Américas com o maior número de infecções e óbitos pela doença, segundo levantamento da Opas (Organização Panamericana de Saúde). Em 2025, 121 brasileiros morreram por complicações da chikungunya.
125 mil
casos de chikungunya foram notificados no Brasil em 2025; Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia tiveram os maiores números de casos prováveis
96%
dos casos confirmados nas Américas em 2025 ocorreram no Brasil, segundo boletim da OMS (Organização Mundial da Saúde); em agosto, o órgão emitiu um alerta de risco para epidemia global da doença