Como é o processo de aprovação de uma vacina no Brasil

Aplicação de vacina no SUS

Aplicação de vacina no SUS

Estados e municípios foram orientados nesta terça-feira (9) a interromper a aplicação-piloto da vacina Butantan-DV contra a dengue em profissionais de saúde. A decisão ocorre um dia após o Ministério da Saúde confirmar registros de efeitos colaterais moderados e graves numa pequena parte dos imunizados. Duas pessoas morreram.

42

casos com sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos, foram registrados após aplicação da Butantan-DV em janeiro

Segundo a pasta, os eventos são “inesperados e incompatíveis com o estudo clínico feito” para aprovação do imunizante, que recebeu o registro definitivo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em novembro de 2025.

Neste texto, o Nexo apresenta os detalhes do caso, explica como é o processo de aprovação de uma vacina no Brasil e mostra quais os próximos passos a partir da decisão do Ministério da Saúde.

Por que a Butantan-DV foi suspensa

A suspensão das aplicações da Butantan-DV ocorreu na segunda-feira (8) após consenso entre o Ministério da Saúde e a Anvisa. Segundo a pasta, 42 pessoas tiveram efeitos adversos incomuns comparados aos das fases de testes, como:

Dentro desse grupo, três casos foram classificados como graves — incluindo a morte de uma mulher de 48 anos e de um homem com 58 anos, que tiveram sintomas de dengue severa. 

“São eventos raros [os casos das 42 pessoas que tiveram efeitos adversos incomuns], que correspondem a 0,008% de um total de 500 mil doses aplicadas até 30 de maio — e ainda não há resultado conclusivo sobre a correlação deles com a vacina”, declarou a pasta.

3.703 

notificações de eventos adversos foram registradas entre os 500 mil vacinados, o que equivale a 0,7%

417 mil

das doses já distribuídas foram aplicadas apenas em profissionais da saúde da atenção primária

A Butantan-DV é uma vacina do tipo tetravalente, ou seja, criada para proteger contra os quatro tipos de vírus da dengue. Ela foi considerada segura e eficaz após ensaios clínicos nos Estados Unidos e no Brasil. Menos de 0,1% dos vacinados durante os testes tiveram eventos adversos sérios, e todos se recuperaram totalmente, segundo o Butantan.

A estratégia de vacinação-piloto com a Butantan-DV começou em janeiro, focada em profissionais da saúde de todo o país e pessoas de 15 a 59 anos nos municípios de Nova Lima (MG), Maranguape (CE), Botucatu (SP) e Araguaína (TO). 

BUTANTAN-DV, VACINA BRASILEIRA CONTRA A DENGUE

Ao jornal O Globo, o diretor do Butantan, Esper Kallás, disse que as reações adversas moderadas e graves registradas agora ocorreram apenas no grupo de profissionais de saúde que receberam o imunizante. Por isso, segundo ele, o instituto deve analisar bases de dados do Ministério da Saúde e rever estudos que estão em andamento. 

“Precisamos aprofundar e ter o máximo de informações possíveis para saber o que é causado pela vacina e o que foi coincidência”, afirmou.

O que uma vacina precisa para ser criada

O desenvolvimento de um imunizante é semelhante ao de um medicamento. O processo começa com a fase exploratória, na qual pesquisadores identificam os “ingredientes” necessários para a produção da vacina. 

Elas podem ser criadas, por exemplo, com RNA mensageiro, produzido a partir de um trecho do DNA que tem a função de carregar informações genéticas para que células do corpo as “leiam” e produzam proteínas.

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Outra alternativa, mais antiga, é usar antígenos, substância que induz a produção de anticorpos sem causar a doença, como vírus ou bactérias mortos ou atenuados (ou seja, enfraquecidos) e inteiros ou fragmentados. A Butantan-DV, por exemplo, utiliza os quatro tipos de vírus da dengue atenuados.

A etapa seguinte é a pré-clínica, em que a substância é testada in vitro e em animais para analisar a resposta do organismo ao imunizante. Nessa fase, os pesquisadores analisam possíveis efeitos tóxicos e podem estimar o método de administração e a dose inicial da vacina. 

Testes em humanos

Na sequência, o produto passa pelas chamadas fases clínicas, com testes em humanos, separados em grupos que recebem o imunizante e outros que recebem placebo (uma substância sem efeito real). Esses estudos devem ser previamente aprovados pela Anvisa, responsável pelo registro sanitário de vacinas no Brasil, e são subdivididos em:

Antes da aprovação, o imunizante pode ser submetido a uma quarta fase de testes clínicos para avaliar a segurança do produto por mais tempo e num número maior de voluntários do que nas fases anteriores, observando possíveis novas reações adversas.

O que uma vacina precisa para ser aprovada

Se apresentar resultados suficientes em todos os testes, o fabricante da vacina pode pedir seu registro para comercializá-la. Para isso, a Anvisa exige documentos e informações como:

Outro documento que deve ser apresentado é um plano de farmacovigilância, estudo contínuo com o objetivo de identificar, avaliar, monitorar e adotar ações de prevenção sobre efeitos adversos ou problemas associados ao uso de medicamentos e outros componentes, como as vacinas.

Com o aval da agência reguladora, o laboratório ou o Ministério da Saúde pode solicitar a análise da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) para inclusão da vacina no PNI (Programa Nacional de Imunizações) do SUS. Para isso, o órgão verifica:

No caso da Butantan-DV, o Ministério da Saúde já havia confirmado a inclusão da vacina no PNI, por isso, adotou a vacinação-piloto. 

A estratégia serve para avaliar a logística de distribuição do imunizante e entender se ele produzirá uma resposta imunológica suficiente para conter a transmissão de uma doença em áreas com maior circulação do vírus. Há uma iniciativa do mesmo tipo adotada com a vacina contra a chikungunya.

A reavaliação de estudos

Em fevereiro de 2024, a revista científica The New England Journal of Medicine divulgou os resultados da fase 3 dos estudos da Butantan-DV. Cerca de 16 mil pessoas, de 14 estados brasileiros, foram monitoradas na etapa clínica, que demonstrou altas taxas de eficácia — isto é, a capacidade do imunizante de alcançar seus objetivos em condições ideais.

79,6%

foi a taxa de eficácia geral do imunizante identificada

Apesar disso, efeitos muito raros, tardios à aplicação ou concentrados em subgrupos específicos podem não ser identificados por pesquisas mais robustas como as do Butantan-DV — o que, de acordo com especialistas ouvidos pelo Nexo, não é necessariamente anormal. 

“A detecção de eventos mais raros após o licenciamento [de uma vacina] no país não significa necessariamente uma falha no desenvolvimento, mas justamente que o sistema de farmacovigilância está funcionando como se espera e deve funcionar”

Mellanie Fontes-Dutra

biomédica, pesquisadora e professora da Escola de Saúde da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), em entrevista ao Nexo

Um dos motivos para isso, segundo Emanuel Maltempi, pesquisador na área de bioquímica molecular e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), são as condições de saúde dos participantes dos estudos. “Os voluntários são em geral saudáveis e passam por avaliação clínica. Quando um número maior de pessoas é vacinado, alguns podem ser portadores de doenças ou fatores que interagem negativamente com a vacina, levando a efeitos indesejados”, disse ao Nexo.

O Ministério da Saúde não confirmou os locais onde os registros de efeitos adversos moderados e graves ocorreram. Nesta terça-feira (9), todos os estados e municípios foram orientados a interromper a aplicação da Butantan-DV temporariamente até que novas análises sejam concluídas — o que, segundo o governo federal, não tem prazo definido.

“Essa decisão não invalida a eficácia, mas busca ganhar tempo para fazermos estudos adicionais e avaliarmos a vacina em diferentes cenários epidemiológicos e grupos populacionais”, disse o diretor do PNI, Eder Gatti, a jornalistas na segunda-feira (8).

Os próximos passos e cuidados

Ao canal GloboNews, Kallás, do Butantan, disse nesta terça-feira (9) que pacientes que receberam a Butantan-DV há mais de 21 dias podem ficar “absolutamente descansados” — ou seja, não precisam se preocupar com possíveis efeitos adversos graves. 

“Todos aqueles que já receberam a vacina podem contar com a proteção que ela promete, de 65% de não pegar a doença cinco anos após a aplicação e 80% para não desenvolver dengue grave”

Esper Kallás

diretor do Butantan, em entrevista à GloboNews nesta terça-feira (9)

Para quem recebeu a vacina há 21 dias ou menos, é recomendado monitorar possíveis sinais de alerta e, se necessário, procurar serviços de saúde locais.

Para os pesquisadores ouvidos pelo Nexo, a decisão do Ministério da Saúde e da Anvisa foi tecnicamente adequada e necessária para a reavaliação do produto e possíveis ajustes em recomendações (como a bula). 

Aplicação de vacina no SUS

Aplicação de vacina no SUS

Por outro lado, o episódio pode reacender a desconfiança sobre vacinas por parte da população — movimento que ganhou força durante a pandemia de covid-19. 

Para Maltempi, da UFPR, a decisão em suspender a vacinação foi rápida e pode minimizar a hesitação se acompanhada de transparência durante a realização de novos estudos. 

“O maior desafio neste momento é uma comunicação pública assertiva para mitigar o impacto na confiança da estratégia de vacinação e em outras vacinas, especialmente outras vacinas contra a dengue [como a Qdenga, aplicada no SUS para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos], que não têm envolvimento com essa medida cautelar de farmacovigilância”, afirmou Fontes-Dutra, da Unisinos.