Como a briga entre Michelle e Flávio expõe o bolsonarismo

A ex-primeira-dama e presidente do PL Mulher, Michelle Bolsonaro

A ex-primeira-dama e presidente do PL Mulher, Michelle Bolsonaro

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou na quarta-feira (24) um vídeo nas redes sociais expondo desavenças com o enteado Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A presidente do PL Mulher disse que foi “maltratada” e “humilhada” pelo pré-candidato à Presidência após discordâncias sobre as alianças envolvendo o palanque do partido do Ceará. 

A publicação vem num momento de desgaste de Flávio, exposto desde maio pela revelação de sua relação com o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Publicações de mensagens trocadas entre os dois na imprensa geraram danos à campanha do PL e levaram à queda do senador nas pesquisas de intenção de voto. 

Neste texto, o Nexo explica as origens do conflito entre Michelle e Flávio e analisa como isso afeta o projeto político do clã. 

A origem da briga entre Michelle e Flávio 

Michelle começou a se envolver formalmente na política partidária em fevereiro de 2023, ao assumir, a convite do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, a presidência do PL Mulher. Segundo ela, o partido percebeu que havia uma lacuna de participação feminina em seus quadros e que esse eleitorado “via Jair [Bolsonaro] com desconfiança”.

Antes disso, sua atuação em eventos com o marido já a havia transformado numa figura forte do bolsonarismo. Michelle participou de maneira ativa, por exemplo, da campanha presidencial de 2022, mirando o eleitorado feminino e evangélico. Bolsonaro perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por uma diferença de apenas 2,1 milhões de votos, no pleito mais apertado desde a redemocratização. 

Michelle Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto em evento do PL em Brasília

Michelle Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto em evento do PL em Brasília

Segundo Michelle disse no vídeo de quase 30 minutos publicado na quarta-feira (24), seu trabalho do PL Mulher, com a instalação de diretórios em estados e municípios nos últimos anos, “conseguiu dar capilaridade ao maior movimento político-partidário de mulheres no país”. 

48%

foi o crescimento de candidatas eleitas pelo PL na eleição municipal de 2024 em relação ao pleito de 2020, segundo dados do partido. Foram 1.005 mulheres eleitas 

Foi nas eleições municipais de 2024 que ocorreu o imbróglio entre ela e Flávio. 

Na época, o deputado federal André Fernandes (PL-CE) disputou a prefeitura de Fortaleza. Parte do eleitorado feminino cearense rejeitava o candidato. Por isso, o PL Mulher iniciou um trabalho de apoio à campanha junto com a vereadora Priscila Costa, presidente estadual do PL Mulher e vice-presidente nacional, segundo Michelle. 

“Ela se dedicou à campanha do André e abriu portas antes fechadas. Não vencemos a eleição por pouco. O que ela recebeu como retribuição foi revoltante”, afirmou Michelle no vídeo publicado na quarta (24).  

Após as eleições, Michelle quis indicar Costa a uma vaga ao Senado pelo Ceará, mas a cúpula do PL já havia dado aval para Fernandes indicar seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE). O arranjo faz parte de um acordo com Ciro Gomes (PSDB) — que já foi crítico vocal de Bolsonaro, mas hoje concorre ao governo do estado com apoio do PL. 

Em 2025, Michelle criticou o acordo publicamente num evento no Ceará. Na ocasião, ela disse a Fernandes que o PL não deveria fazer aliança com um “homem que é contra o maior líder da direita” brasileira. Ela defende que o partido apoie a candidatura do senador Eduardo Girão (Novo-CE) ao governo por sua “coerência” com os “valores de direita” e com pautas conservadoras — algo que, segundo ela, Ciro não tem. 

Na sequência do evento, Flávio escreveu no X (ex-Twitter) que Michelle “atropelou o presidente Bolsonaro” e que a forma como se dirigiu a Fernandes foi “autoritária e constrangedora”. Seus irmãos, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), o apoiaram nas redes. 

Jair Bolsonaro e seus três filhos mais velhos, em 2021. Eles usam terno escuro e estão lado a lado

Jair Bolsonaro e seus três filhos mais velhos, em 2021

Após as postagens, Michelle disse que ligou para Flávio. Quando ele atendeu, “foi muito ríspido, me maltratou e disse que eu havia chegado ontem [no partido]”, segundo o vídeo publicado na quarta-feira (24). “Disse que não entendia nada de política e era melhor ficar na minha. Para ele, e alguns que o cercam, não entendo de política.” 

“Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam”

Michelle Bolsonaro

Ex-primeira-dama e presidente do PL Mulher, em vídeo sobre a relação com os filhos de Bolsonaro

Ainda no vídeo publicado na quarta (24), Michelle disse que foi atacada por um “blogueiro dos Estados Unidos”, em referência ao influenciador Paulo Figueiredo, uma das figuras que atuaram nos EUA com Eduardo — o que resultou no tarifaço de Donald Trump contra o Brasil em 2025. Na época, Figueiredo afirmou que Michelle estava “cagando” para Bolsonaro. 

O vídeo de Michelle gerou repercussões. Na quinta (25), a ex-primeira-dama pediu que todo mundo “fique em paz” e disse que irá “trabalhar junto [com Flávio] para derrotar o atual desgoverno” de Lula. 

Em resposta, Flávio publicou um vídeo dizendo que “jamais teve a intenção” de ofender Michelle, pedindo desculpas à madrasta e definindo como “importantíssimo” seu trabalho à frente do PL Mulher. 

Já Valdemar da Costa Neto divulgou nota dizendo que “a liberdade de se expressar o que se pensa, o que se sente e no que se acredita é a verdadeira essência da democracia”.  

André Fernandes também se manifestou. O deputado disse que não vai mudar o apoio a Ciro Gomes e que “do Ceará, nós tomaremos conta”. 

As contradições públicas

Essa não é a primeira vez que a família Bolsonaro expõe atritos a respeito de estratégias políticas e crises internas. 

As brigas públicas se avolumaram em 2023, quando o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tornou Bolsonaro inelegível até 2030, abrindo espaço para discussões sobre seu possível sucessor político. O tema ganhou ainda mais força depois de o Supremo Tribunal Federal condenar o ex-presidente por tentativa de golpe de Estado em 2025. 

Presidente do PL, Valdemar da Costa Neto defendeu o nome de Michelle para disputar a Presidência em 2026. Bolsonaro, no entanto, vetou a candidatura, definindo Flávio como o nome do partido nas eleições de outubro. 

Indicações políticas de Michelle também já foram vetadas. Além de Priscila Costa, do Ceará, a ex-primeira-dama pleiteava, por exemplo, que a deputada federal Caroline de Toni fosse o principal nome do PL ao Senado por Santa Catarina. Tanto o partido quanto Jair, no entanto, se esforçaram para emplacar a candidatura de Carlos Bolsonaro. 

PL Deputada Federal Caroline de Toni, do PL de Santa Catarina

Deputada Federal Caroline de Toni, do PL de Santa Catarina

Michelle disse no vídeo publicado na quarta (24) que é “muito difícil” manter as poucas candidaturas femininas que pleiteia. Segundo ela, o número de mulheres cotadas pelo PL ao Senado é muito menor do que os 30% estabelecidos pela Lei das Eleições aos partidos. 

Para a cientista política Débora Thomé, professora do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa) Brasília e autora do livro “Candidatas: os primeiros passos das mulheres na política no Brasil”, a narrativa da ex-primeira dama, embora repleta de elementos conservadores, chama a atenção para uma possível violência política da qual ela e outras mulheres estariam sendo alvos dentro do PL. 

“Quando Michelle chama a atenção para as candidatas mulheres que ajudou a criar e estão sendo preteridas, faz um papel que muito se assemelha ao que as mulheres líderes da esquerda têm feito. Mas ela também está usando essa narrativa para fazer um jogo interno”, disse ao Nexo

 

Mais brigas

‘Unfollow’ em Michelle

Depois de Lula vencer em 2022, a conta de Bolsonaro nas redes sociais, gerenciada na época por Carlos, deixou de seguir o perfil de Michelle, que reagiu e deu “unfollow” de volta. O episódio causou uma série de especulações sobre a relação do casal. 

 

Veto no Alvorada

Às vésperas da eleição de 2022, Michelle teria restringido o acesso de Carlos ao Palácio da Alvorada, e interlocutores pediram que ele se retirasse do local após uma reunião com o pai. Depois do episódio, o filho Zero Dois não acompanhou Jair num debate na Globo. 

 

Avanço no PL 

O protagonismo de Michelle no partido gerou ciúmes em Flávio. Segundo reportagem do UOL, o senador não via a escolha da ex-primeira-dama para a presidência do PL Mulher “com bons olhos” e disse que se sentia “apagado” com sua presença em eventos. 

Os impactos dos conflitos

Para o cientista político Leandro Consentino, do Insper, a exposição das brigas da família Bolsonaro “afeta muito” a campanha de Flávio, por conta do baixo “estoque” de votos, disputados por ele e Lula, que não estão no campo do lulismo nem do bolsonarismo. 

“Depois de ele ter perdido parte dos independentes com a revelação dos áudios de [Daniel] Vorcaro, [a briga com Michelle] pode danificar o estoque de votos que ele já tinha no próprio bolsonarismo”, disse ao Nexo

Embora seja natural que famílias da política tenham seus conflitos publicizados, a maneira histriônica dos Bolsonaro de fazer política — baseada na dinâmica agressiva das redes sociais — intensifica a exposição e a descoordenação das mensagens emitidas por seus integrantes, segundo ele. 

“Isso tem sua vantagem em determinados momentos, mas é uma exposição o tempo todo, quase como um reality show”, afirmou. 

As brigas públicas também minam a unidade de ação dos Bolsonaro — tema que é central na política —, segundo Consentino.

“Quando você mantém conflitos expostos, você deixa de ter uma unidade, se não verdadeira, pelo menos perante o público. E isso afeta a imagem pública da família, sobretudo num projeto que fala de valores familiares”, disse.