O que Viviane Barci explicou sobre o contrato do Master

Viviane Barci e Alexandre de Moraes

Viviane Barci e Alexandre de Moraes

Viviane Barci de Moraes fez o primeiro esclarecimento público sobre o contrato que seu escritório manteve com o Banco Master em nota publicada na segunda-feira (9).

De acordo com a advogada, que é esposa do ministro Alexandre de Moraes, o foco do trabalho foi no compliance e código de ética da instituição financeira, envolvida em uma fraude bancária bilionária, cujo processo tramita no Supremo Tribunal Federal. 

Neste texto, o Nexo retoma a revelação do contrato e mostra quais foram as explicações da advogada. 

As relações com o Master 

No dia 7 de dezembro de 2025, o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, revelou a existência de um contrato entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o Banco Master. O documento havia sido apreendido na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga o caso.

A instituição financeira de Daniel Vorcaro, envolvida em uma fraude bancária bilionária, foi liquidada em 18 de novembro pelo Banco Central. O inquérito do caso tramita no Supremo Tribunal Federal. 

Dois dias depois da revelação de Lauro Jardim, a jornalista Malu Gaspar, também do jornal O Globo, publicou uma reportagem com detalhes sobre o contrato milionário do escritório de Barci de Moraes com o Master. O documento previa o pagamento de R$ 129 milhões em três anos, a partir do início de 2024. 

Na época, a coluna de Malu Gaspar procurou o escritório para questionar o escopo do contrato e os valores recebidos, mas não obteve resposta. Até então, a advogada nunca havia se pronunciado publicamente sobre o tema. 

A mudança de postura

Após a segunda prisão de Daniel Vorcaro, na quarta-feira (4), Viviane Barci de Moraes contratou uma assessoria de imprensa para direcionar os esclarecimentos públicos sobre seu contrato com o Master, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo.

Um dia depois, Malu Gaspar revelou que Moraes e Vorcaro mantinham conversas no WhatsApp, e o banqueiro havia procurado o magistrado horas antes de sua primeira prisão, em novembro de 2025, para uma espécie de prestação de contas. 

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, disse Vorcaro na mensagem. Em resposta, Moraes enviou três mensagens de visualização única — o banqueiro escrevia em um bloco de notas, capturava a tela e enviava a imagem ao ministro, que respondia com outra foto. 

O banqueiro Daniel Vorcaro

O banqueiro Daniel Vorcaro

Moraes negou que as mensagens tenham sido direcionadas a ele e disse que elas “não conferem com os contatos do ministro nos arquivos apreendidos”, em referência às mensagens que estão em documentos obtidos pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) — e que vieram a público na quinta (5) — a partir da quebra de sigilo telefônico de Vorcaro.

De acordo com o jornal O Globo, o material ao qual Malu Gaspar teve acesso é resultado de uma extração realizada por um software específico da Polícia Federal, que exibe as mensagens e os arquivos enviados, o que permite reverter a visualização única do conteúdo. 

A corporação trabalha com programas como o israelense Cellebrite e o americano GreyKey. Ambos são de uso restrito e permitem acessar mensagens e arquivos até mesmo com celulares desligados. 

Outro software utilizado pela Polícia Federal é o Iped (Indexador e Processador de Evidências Digitais), um programa criado por peritos em 2012 que faz varreduras em celulares apreendidos e permite localizar informações em conversas e arquivos. 

O que diz a nota do Barci de Moraes

O escritório Barci de Moraes divulgou uma nota na segunda-feira (9) com esclarecimentos sobre o contrato que manteve com o Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, mês em que a instituição financeira foi liquidada. O texto detalha a natureza dos serviços da empresa e o período da prestação, mas não trata de valores nem confirma que o total acordado era de R$ 129 milhões. 

De acordo com a nota, o escritório realizou uma “ampla consultoria e atuação jurídica, por meio de uma equipe composta por 15 advogados”, além da contratação de outros três escritórios especializados em consultoria que foram coordenados pelo Barci de Moraes. 

No total, diz a nota, o escritório realizou 94 reuniões, 79 delas presenciais, na sede do Master, para “análise de documentos, discussão dos problemas jurídicos e desenvolvimento do objeto do contrato”. Houve ainda 13 encontros com a presidência do banco e com sua equipe jurídica por videoconferência. 

“Foram produzidos 36 pareceres e opiniões legais acerca de uma ampla gama de temas, como aspectos previdenciários, contratuais, negociais, trabalhistas, regulatórios, de compliance, proteção de dados e crédito, entre outros”, afirma o texto divulgado pelo escritório, que elaborou ainda a revisão do RPPS (Regime Próprio da Previdência Social) e a implementação de um novo código de ética e de conduta do Master. 

A nota também diz que outra equipe do Barci de Moraes, junto com consultores dos outros três escritórios contratados, trabalhou “na área penal e administrativa, na análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais, ações penais, inquéritos civis, ações civis públicas e ações de interesse ou que pudessem produzir reflexos na atuação do Banco Master e de seus dirigentes, vários deles sigilosos”. 

Por fim, o escritório disse que “nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do Supremo Tribunal Federal” e “tem uma trajetória de quase duas décadas prestando serviços altamente qualificados para grandes clientes, unindo visão jurídica e abordagem estratégica”. 

Cinco advogados ouvidos sob reserva pela colunista Raquel Landim, do jornal O Estado de S. Paulo, afirmaram que a nota deixa dúvidas. Embora o valor de R$ 129 milhões não tenha sido confirmado, as condições do contrato fazem pouco sentido e o valor cobrado pela hora trabalhada é muito acima do praticado no mercado por escritórios de ponta, segundo eles. Além disso, contratos caros e longos envolvem objetivos finais, como IPO (Oferta Inicial Pública de Ações). 

A reunião com o BC

Além do contrato de Viviane Barci de Moraes com o Master, outras situações envolvendo o banco pesam sobre o casal. Em 22 de  dezembro de 2025, por exemplo, Malu Gaspar revelou que Moraes procurou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para interceder a favor da instituição durante a análise de sua venda para o BRB (Banco de Brasília). 

Em 28 de março do mesmo ano, o BRB, uma sociedade de economia mista controlada pelo Distrito Federal, cujo governador é Ibaneis Rocha (MDB), anunciou a aquisição de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões. 

Na época, já havia desconfiança no mercado financeiro sobre a maneira pela qual o Master operava, vendendo títulos de renda fixa, como CDBs (Certificados de Depósito Bancário), com rendimentos acima da média. Mesmo assim, as negociações seguiram, e órgãos como o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovaram o negócio. 

Porém, faltava o aval final do Banco Central, que ficou meses com o processo. Nesse período, segundo Malu Gaspar, Moraes fez pelo menos quatro reuniões com Galípolo e três ligações para saber do andamento da operação de venda ao BRB. 

De acordo com a jornalista, Galípolo respondeu a Moraes que técnicos do Banco Central haviam descoberto fraudes no repasse de bilhões em crédito do Master ao BRB. No dia 3 de setembro, o Banco Central rejeitou a venda do Master para o BRB, pela dúvida sobre a viabilidade econômico-financeira da operação.

Publicamente, tanto o magistrado como o BC disseram por meio de nota que os encontros foram para tratar das consequências da Lei Magnitsky — o ministro e a esposa foram alvo de sanções dos Estados Unidos por meses durante 2025.