As mensagens de Vorcaro nos documentos da CPI do INSS

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira em evento da Esfera Brasil. Eles estão sentados lado a lado; Vorcaro fala em um microfone

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira em evento da Esfera Brasil

Mensagens reveladas nesta quinta-feira (5) mostram Daniel Vorcaro comemorando com sua então companheira, a blogueira Martha Graeff, uma emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) na PEC da Autonomia Financeira do Banco Central. O ponto favorecia o Banco Master, do qual o empresário era presidente. 

Em outras conversas, o banqueiro — preso novamente na quarta-feira (4) em nova fase da Operação Compliance Zero — relatou encontros com figuras como o ministro Alexandre de Moraes e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). As mensagens estão em documentos obtidos pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a partir da quebra de sigilo telefônico de Vorcaro. 

Neste texto, o Nexo mostra os principais pontos das mensagens do banqueiro. 

A relação com Ciro Nogueira

Em 13 de agosto de 2024, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente da legenda e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), tentou alterar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que garante a autonomia do Banco Central por meio de uma emenda que ficou conhecida como “emenda Master”. 

À época, o Nogueira propôs aumentar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em aplicações como o CDB, principal produto do banco. O projeto acabou engavetado. 

Em mensagem enviada à companheira Martha Graeff, poucas horas após a apresentação da emenda, Vorcaro comemorou a ação de Nogueira. “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco”, escreveu. 

Em maio de 2024, em outra troca de mensagens com Graeff, Vorcaro se referiu ao senador como “muito amigo” seu.

“Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”

Daniel Vorcaro

banqueiro, em mensagem enviada em maio de 2024 sobre a relação com Ciro Nogueira

Desde antes da revelação das mensagens, já se sabia da relação próxima entre Vorcaro e Nogueira. O senador teria ajudado nas articulações para a venda do Master ao BRB (Banco de Brasília) em 2025 — que não foi adiante, por negativa do Banco Central. Antonio Rueda, presidente do União Brasil, é outra pessoa citada como ponte entre o banqueiro e o meio político. 

Em abril de 2025, logo após o anúncio da compra do Master pelo BRB, senadores como Izalci Lucas (PL-DF) e Jorge Kajuru (PSB-GO) tentaram emplacar uma CPI para investigar o Master. 

Segundo o jornal O Globo, Nogueira agiu nos bastidores para atender aos interesses do banco e fazer com que as investigações não começassem no Senado. Na época, Kajuru disse ao jornal que o lobby contra a CPI estava “pesado” e “boa parte dos senadores não iria se vender”, mas “tem gente que tem preço”. 

Procurada na quarta-feira (4), a assessoria de imprensa de Nogueira disse que o senador “está tranquilo quanto às investigações” e “nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso”.

As citações a Moraes

Em 19 de abril de 2025, também em conversa com Graeff, Vorcaro contou estar indo se encontrar com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. “Como assim, amor? Ele está em Campos? Ou foi para te ver?”, perguntou a influenciadora, ao que o banqueiro respondeu: “ele tá passando o feriado”.

O ministro ainda é citado em outras passagens, como quando Graeff, em 29 de abril de 2025, perguntou a Vorcaro se Moraes havia gostado da casa. O banqueiro respondeu: “Sim. Falou que é bem melhor. E ele adorava apartamento”. “Falou pra te agradar. Que vergonha eu tava de pijama”, respondeu a influenciadora.

Em abril de 2025, um mês depois do anúncio da compra do Master pelo BRB, o jornal O Globo revelou a instituição de Vorcaro havia contratado o escritório de advocacia Barci de Moraes. Nele, atuam a esposa, Viviane Barci, e os dois filhos de Alexandre de Moraes. No dia 9 de dezembro, a jornalista Malu Gaspar publicou uma reportagem com detalhes sobre o contrato milionário

Segundo a jornalista, o contrato — com duração de três anos e início em 2024 — previa a remuneração de R$ 3,6 milhões mensais pelo Master ao Barci de Moraes. Estava previsto que o escritório representasse o banco e Vorcaro junto ao Banco Central, ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), ao Congresso Nacional e à Receita Federal. Caso o contrato tivesse sido cumprido, o Barci de Moraes teria recebido R$ 129 milhões ao final — o que não ocorreu, por conta da liquidação do banco. 

Procurado na quarta-feira (4) sobre as mensagens que o mencionam, Moraes não se manifestou. 

Outras mensagens 

Em 4 de dezembro de 2024, Vorcaro disse a Graeff que uma reunião com Luiz Inácio Lula da Silva havia sido “ótima”. O encontro, revelado em março de 2025 pelo jornal O Globo, ocorreu antes de as fraudes do Master virem a público. 

Na ocasião, Vorcaro teria reclamado com o presidente da República sobre a concentração do mercado bancário no Brasil. Lula teria respondido que o tema era de competência do Banco Central e pedido que Gabriel Galípolo, presidente da instituição, o analisasse. Também participaram do encontro os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, além do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e do ex-sócio do Master Augusto Lima. 

Meses depois, em fevereiro de 2025, após Hugo Motta (Republicanos-PB) ter sido eleito presidente da Câmara dos Deputados, Vorcaro participou de um jantar na residência oficial do parlamentar, conforme ele relatou em mensagens para Graeff. “Tô aqui em Brasília trabalhando, amor. Tô num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários”, escreveu. 

Em outras conversas, Vorcaro relatou com orgulho ter discursado para os ministros do Supremo e do Superior Tribunal de Justiça num evento em Londres. “Amor, acabei de dar o discurso para os ministros. Eu sou muito louco. Todos ministros do Brasil. Do STF, STJ. E euzinho discursando”, escreveu. 

Segundo a jornalista Mônica Bergamo, o relacionamento de Vorcaro e Graeff terminou em novembro de 2025, após a primeira prisão do banqueiro. 

O histórico do caso Master

O caso Master eclodiu após uma série de atos suspeitos que começaram em março de 2025. Na época, o BRB, controlado pelo Distrito Federal, havia anunciado a aquisição de 58% do capital do Banco Master por cerca de R$ 2 bilhões. O percentual correspondia a 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais da instituição.

Os Ministérios Públicos Federal e do Distrito Federal, o Ministério Público de Contas e o Tribunal de Justiça do Distrito Federal questionaram as negociações. Também havia a preocupação do mercado financeiro com uma possível falência da instituição financeira, por conta de seu modelo de operação, que oferecia altas taxas de retorno e fazia investimentos arriscados. 

Embora o Cade e a Câmara Legislativa do Distrito Federal tenham aprovado o negócio, o Banco Central rejeitou a venda do Master para o BRB, pela dúvida sobre a viabilidade econômico-financeira da operação.

Em novembro de 2025, o Master anunciou que tinha achado um novo comprador: a Fictor Holding Financeira. Na sequência, Vorcaro tentou sair do país e foi preso na operação Compliance Zero — deflagrada pela Polícia Federal para investigar a venda de títulos de crédito falsos pelo Master, numa fraude de R$ 12 bilhões. 

A defesa de Vorcaro acionou o Supremo. O caso foi inicialmente distribuído para o ministro Dias Toffoli, mas a relatoria foi colocada sob prova após um relatório da Polícia Federal levantar conexões do magistrado com o presidente do Master. Em fevereiro, André Mendonça assumiu a relatoria.