As discussões políticas dentro do Festival de Cinema de Berlim

Urso de Ouro e de Prata, premiações do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Estatuetas de urso de ouro e prata

Urso de Ouro e de Prata, premiações do Festival Internacional de Cinema de Berlim

A 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim começou no dia 12 de fevereiro e vai até domingo (22). O evento de 2026 tem sido marcado por manifestações políticas e apolíticas dos cineastas envolvidos com o Berlinale, como a cerimônia é conhecida.

No primeiro dia do evento, o diretor Wim Wenders (“Dias perfeitos”), presidente do júri internacional da edição, afirmou que o festival deveria ficar “fora da política”. Na terça-feira (17), a revista Variety publicou uma carta assinada por 81 profissionais do cinema repudiando a falta de posicionamento da organização sobre a violência em Gaza

Neste texto, o Nexo explica como Gaza se tornou alvo de discussão no Berlinale e mostra qual a participação brasileira no festival.

A fala de Wim Wenders

A declaração de Wim Wenders ocorreu durante uma entrevista do júri a jornalistas no primeiro dia do Festival de Berlim. O grupo é responsável por escolher os melhores da edição e premiá-los com as estatuetas do Urso de Prata e do Urso de Ouro. 

O jornalista alemão Tilo Jung perguntou ao júri por que o Festival de Berlim não havia demonstrado clara solidariedade à Palestina, como fez anteriormente com a guerra da Ucrânia e os protestos no Irã em 2025. “Considerando que o festival é financiado com recursos públicos alemães e que o governo alemão apoia fortemente Israel no contexto de Gaza, como o júri avalia essa abordagem seletiva em matéria de direitos humanos?”, questionou o repórter. 

A Alemanha é um dos principais parceiros políticos e econômicos de Israel desde sua criação, em 1948. Apesar de críticas pontuais do chanceler Friedrich Merz à violência em Gaza, o país segue apoiando o aliado no Oriente Médio. Em dezembro de 2025, eles aprovaram um acordo de € 3,1 bilhões para o fornecimento de um sistema de defesa antiaérea israelense. 

Após a pergunta de Jung no Festival de Berlim, a produtora polonesa Ewa Puszczyńska, responsável pelo filme “Zona de interesse” (2023), disse que a achava injusta. “É claro que tentamos falar com cada espectador, para fazê-los pensar, mas não podemos ser responsáveis pela decisão que eles tomam, de apoiar Israel ou a Palestina”, afirmou. 

O público a aplaudiu pela declaração. Na sequência, Wenders afirmou que o cinema deveria se afastar da política. 

“Porque se fizermos filmes que sejam declaradamente políticos, entramos no campo da política. Mas somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos”

Win Wenders

diretor alemão, em entrevista a jornalistas no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2026

A transmissão ao vivo da entrevista foi cortada durante a pergunta do repórter e retornou após a declaração de Wenders. Em resposta a questionamentos, a equipe do Berlinale afirmou que ocorreram problemas técnicos e, mais tarde, disponibilizou a conferência na íntegra. 

Mais declarações apolíticas

Além do júri, outros nomes do cinema preferiram não se posicionar politicamente durante o Festival de Berlim. 

O ator americano Neil Patrick Harris (“How I Met Your Mother”), por exemplo, disse na sexta-feira (13) preferir fazer produções apolíticas: “Porque todos nós, como seres humanos, queremos nos conectar de alguma forma”. A declaração foi dada durante entrevista a jornalistas para a divulgação do filme “Sunny Dancer”. 

No mesmo dia, Michelle Yeoh (“Tudo em todo lugar ao mesmo tempo”) se recusou a fazer comentários sobre o tema. “Não acho que esteja em posição de falar sobre a situação política nos EUA, e também não posso dizer que a entendo, então é melhor não falar sobre algo que desconheço”, disse a atriz malaia em entrevista após receber o Urso de Ouro Honorário pelo conjunto de sua carreira.

Por outro lado, Yeoh se posicionou a respeito da falta de diversidade em Hollywood: “Hoje, estou aqui com um Urso de Ouro, não por causa de apenas um filme, mas pela perseverança, pela resiliência, pela teimosia em dizer: ‘Eu não vou simplesmente embora. Vou ficar até que as mudanças certas sejam feitas, não apenas para as minorias, mas para todos’”. 

Michelle Yeoh, após receber o Urso de Ouro Honorário de 2026. Mulher segurando um a estatueta de urso dourado

Michelle Yeoh, após receber o Urso de Ouro Honorário de 2026

No sábado (14), a diretora do festival, Tricia Tuttle, divulgou um comunicado sobre a controvérsia. Segundo ela, os 278 filmes da programação expressam temas como genocídio, violência sexual em guerras, corrupção, violência patriarcal, colonialismo ou abuso de poder estatal. Em outros, a intenção é retratar o estado da arte ou o cotidiano social. 

“Os artistas têm a liberdade de exercer seu direito à liberdade de expressão da maneira que escolherem. Não se deve esperar que eles comentem sobre todos os debates mais amplos a respeito das práticas passadas ou presentes de um festival, sobre as quais não têm controle. Tampouco se deve esperar que se manifestem sobre todas as questões políticas que lhes forem apresentadas, a menos que assim o desejem” 

Tricia Tuttle

diretora do Berlinale, em comunicado

O posicionamento dos artistas 

A fala controversa de Wim Wenders gerou reações no meio artístico. A escritora indiana Arundhati Roy — responsável pelo livro “O deus das pequenas coisas” (1997) —, por exemplo, cancelou sua participação no Festival de Berlim após as declarações do júri internacional. 

Em declaração ao jornal indiano The Wire na sexta-feira (13), ela disse estar “chocada e enojada” com as falas de que a arte não deve ser política. “É uma forma de silenciar uma conversa sobre um crime contra a humanidade enquanto ele se desenrola diante de nossos olhos em tempo real — quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo ao seu alcance para impedi-lo”, afirmou. 

Dentre os 81 signatários da carta que criticou a omissão do festival sobre Gaza, estão nomes como a atriz britânica Tilda Swinton (“As crônicas de Nárnia”), o ator espanhol Javier Bardem (“Onde os fracos não têm vez”) e o diretor brasileiro Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”). Eles afirmaram ser totalmente contra a declaração de Wenders. 

“Estamos consternados com o envolvimento do Berlinale na censura de artistas que se opõem ao genocídio israelense contra os palestinos em Gaza e com o papel fundamental do Estado alemão em permiti-lo”, afirmaram os signatários. Ainda segundo a carta, organizadores da edição de 2025 do festival teriam repreendido cineastas com manifestações favoráveis aos palestinos, e a polícia alemã teria investigado um deles.

A carta também citou declarações feitas pela advogada bangladeshiana Irene Khan, relatora especial da ONU sobre o direito à liberdade de opinião e expressão, após visita à Alemanha. Em comunicado divulgado no dia 6 de fevereiro, ela disse que há uma censura de instituições locais contra manifestações pró-Palestina, assim como a exclusão de personalidades israelenses de eventos.

“Tudo isso levou a uma diminuição da participação pública, à redução do debate acadêmico e artístico e a um clima geral de desconfiança, incerteza e tensão”

Irene Khan

advogada e relatora especial da ONU sobre o direito à liberdade de opinião e expressão

“Apelamos para que o Berlinale cumpra seu dever moral e declare abertamente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra cometidos por Israel contra os palestinos, e cesse completamente seu envolvimento na proteção de Israel contra críticas e exigências de responsabilização”, finalizou a carta. 

O Instituto de Cinema da Palestina já havia anunciado um boicote ao Festival de Berlim deste ano, assim como o fez na edição de 2025. O silêncio da organização sobre Gaza e a não defesa da livre expressão dos cineastas estão entre os motivos para a desistência da participação. 

Este não é o primeiro movimento de Hollywood em defesa de Gaza. Em setembro de 2025, mais de 1.300 artistas assinaram uma carta conjunta a favor da Palestina, com nomes como a atriz britânica Olívia Colman (“A favorita”), o ator americano Mark Ruffalo (“Vingadores: Ultimato”) e o diretor grego Yorgos Lanthimos (“Pobres criaturas”). 

5.000

pessoas haviam assinado o documento em 20 dias

O Brasil no Festival de Berlim 

O Festival de Berlim é um dos principais eventos do circuito cinematográfico, junto de Cannes e Veneza. Sua primeira edição ocorreu em 1951, como forma de retomar a cena cultural da capital alemã após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

A primeira indicação brasileira ao Urso de Ouro, principal premiação do Berlinale, foi com “Sinhá Moça”, de Tom Payne, em 1954. Desde então, o Brasil esteve muitas vezes entre os indicados, mas só venceu a categoria em duas ocasiões: com “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, e “Tropa de elite” (2008), de José Padilha

A edição de 2025 do festival teve “O último azul”, de Gabriel Mascaro, como vencedor do Grande Prêmio do Júri, a segunda principal premiação do evento. Antes, o Brasil tinha conquistado o Urso de Prata da categoria com “Os fuzis” (1964), de Ruy Guerra, “Brasil Ano 2000” (1969), de Walter Lima Jr., e “A queda” (1978), de Nelson Xavier e Ruy Guerra. 

Três atrizes brasileiras também ganharam prêmios no Berlinale. Fernanda Montenegro levou o Urso de Prata por seu papel em “Central do Brasil”. Antes dela, Marcélia Cartaxo venceu por “A hora da estrela” (1986) e Ana Beatriz Nogueira, por “Vera” (1987). 

Dez produções brasileiras estão em exibição em diferentes mostras do festival em 2026. Além delas, o cearense Karim Aïnouz (“A vida invisível”) concorre ao Urso de Ouro com “Rosebush Pruning”, uma produção internacional. 

O filme “Josephine”, da brasilo-americana Beth de Araújo, é um dos indicados na categoria principal. A trama, inspirada em acontecimentos da vida da cineasta, gira em torno de uma menina de 8 anos que testemunhou uma tentativa de estupro num parque. O longa venceu a categoria principal e o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance de 2026, em Utah, nos Estados Unidos. 

A cerimônia de premiação do Urso de Ouro ocorre no sábado (21).