A trajetória de Mequinho, de enxadrista a religioso

Mequinho durante partida em Wijk aan Zee, na Holanda

Mequinho durante partida em Wijk aan Zee, na Holanda

Em 1972, antes de completar 20 anos, Henrique Costa Mecking, o Mequinho, retornou ao Brasil do Torneio Internacional de Hastings (Inglaterra) com o título de Grande Mestre internacional de xadrez, o mais alto concedido a um enxadrista. 

Foi a primeira vez que um brasileiro chegou a esse patamar no esporte, que não é tradicional no país. Mecking nasceu na cidade de Santa Cruz do Sul (RS) e quando era criança já arrancava vitórias de outros jogadores mais experientes. 

A trajetória ascendente foi interrompida ainda nos anos 1970, quando Mequinho foi diagnosticado com uma doença autoimune. Após uma melhora no quadro, acreditou ter sido curado por Deus e passou a se dedicar à RCC (Renovação Carismática Católica).

Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória de Mequinho, da ascensão até o distanciamento dos tabuleiros, e mostra a presença brasileira no xadrez.

O garoto-prodígio

Henrique Costa Mecking nasceu em janeiro de 1952 em Santa Cruz do Sul. Sua família era composta pelos pais, Paulo Hugo Mecking e Maria José Costa, e outros três irmãos.

Foi sua mãe quem o apresentou ao xadrez, quando tinha cerca de cinco anos. Após demonstrar aptidão para o jogo, Mecking continuou seus estudos com jogadores de São Lourenço do Sul – outra cidade da região, para onde a família se mudou –, como Menna Barreto, delegado e o enxadrista mais forte da região.

A mudança mais expressiva em sua trajetória aconteceu quando a família se mudou para Pelotas. A cidade gaúcha possuía tradição no esporte e jogadores mais experientes, o que tornou possível a evolução do menino no xadrez.

Mequinho chegou a se tornar naquele momento o segundo campeão nacional de xadrez mais jovem da história, aos 13 anos e cinco meses, atrás apenas do cubano José Raúl Capablanca, que alcançou o feito quando era cinco meses mais jovem. Apesar disso, ele precisava conciliar as partidas com os estudos, por exigência dos pais.

O cenário mudou quando ele foi aceito no curso de física na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre. Pouco tempo após o ingresso, deixou os estudos e passou a se concentrar exclusivamente no xadrez.

O esforço valeu a pena quando embarcou em Hastings, em 1971. Mecking se tornou o grande mestre mais jovem do mundo na época.

Quando retornou ao Brasil, em 18 de janeiro de 1972, foi recebido como astro no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, estado em que passou a morar. Também foi celebrado pelo presidente da ditadura Emílio Médici, além de outros ministros e governadores brasileiros, e ovacionado no Maracanã, onde deu o pontapé inicial na partida entre Flamengo e Vasco.

Mequinho e o jogador Francisco Reyes em 1972

Mequinho e o jogador Francisco Reyes em 1972

Com a vitória, Mequinho foi colocado ao lado do jogador de futebol Pelé e do automobilista Emerson Fittipaldi no imaginário da época. Também foi eternizado em músicas de Raul Seixas e sua presença tornou-se frequente em jornais e programas de auditório. 

O abandono dos tabuleiros

Em 1977, durante o Torneio de Candidatos, na Suíça, Mecking enfrentou o Grande Mestre Lev Polugaevsky, da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), com o qual já tinha jogado em um torneio anterior em Petrópolis.

Cerca de um mês depois do final do embate que trouxe a derrota de Mequinho, em maio de 1977, o enxadrista começou a apresentar os primeiros sinais de que estava doente, com inflamações recorrentes na garganta. 

Mequinho aparecia no terceiro lugar do ranking internacional de xadrez da Fide, atrás de Anatoli Karpov e Korchnoi, no começo de 1978. Com os mesmos pontos que o brasileiro estavam Lajos Portisch e o ex-campeão mundial Boris Spassky.

No primeiro torneio que participou após a derrota contra Polugaevsky, em 1978, em Wijk aan Zee, na Holanda, a saúde de Mecking começou a se deteriorar.

O enxadrista buscou Bernard Michael Patten, médico que trabalhava em Houston, para fazer exames. Ele recebeu o diagnóstico de “provável miastenia grave”, uma doença autoimune que prejudica a comunicação entre o sistema nervoso e os músculos. 

Era uma causa possível para as queixas do jogador, mas não uma conclusão exata porque o brasileiro deixou os Estados Unidos antes de finalizar todos os exames.

O diagnóstico afastou Mecking de possíveis jogadas e afetou o seu cotidiano, já que sentia cansaço, falta de ar e fraqueza. Mequinho, após ter sido recomendado ao grupo RCC para buscar tratamento, começou a participar dos encontros promovidos pela organização religiosa. 

Em 1979, Tia Laura, figura da RCC considerada responsável por curar os enfermos, encontrou-se com Mequinho, que, segundo ele em entrevistas posteriores, saiu praticamente livre da doença. 

O tempo dedicado ao xadrez foi substituído pela dedicação à religião. Mecking tentou tornar-se padre, sem sucesso, e escreveu o livro “Como Jesus Cristo salvou a minha vida” (1981).

Na década de 1990, voltou a atenção ao esporte, mas não com a mesma intensidade de antes. Hoje, continua a participar de eventos enxadrísticos, jogando contra outros adversários brasileiros, ao mesmo tempo em que aproveita o palanque para falar de religião, já que, segundo ele, foi escolhido por Jesus como um dos dois profetas do apocalipse.

A biografia de Mequinho

“Entre bispos e reis: a trajetória de Mequinho, um gênio brasileiro do xadrez”, biografia sobre a história de Mequinho, foi lançada em 9 de março.

Uirá Machado, jornalista e autor do livro, disse em entrevista ao Nexo que um dos interesses ao escrever a biografia era abordar temas que são senso comum no esporte, como a loucura que parece perseguir os enxadristas – eternizada em livros como “O livro do xadrez”, de Stefan Zweig – e a crença de que os grandes mestres apresentam talentos inatos.

“O Mequinho foi um Grande Mestre muito cedo, então eu quis trazer uma discussão sobre talento versus treinamento. Quando eu apresento os estudos sobre a quantidade de horas necessárias para alguém virar especialista em sua área de atuação, também é para dar noção de quanto esforço está envolvido na construção de um grande jogador, de um grande talento”, afirmou o jornalista.

Outro assunto discutido são as pressões que Mecking sofria por ser tido como o próximo grande enxadrista e orgulho brasileiro. Algo resumido na fala de seu adversário Viktor Korchnoi, mais velho, antes de um embate entre os dois: “Ele joga com o peso do futuro sobre os ombros, e eu, com o peso do passado”.

“As expectativas da sociedade às vezes tentam acelerar um caminho que pode ser demorado, e podem criar frustrações onde não deveria haver. Chegar ao terceiro do mundo em qualquer área de atividade é sensacional, mas o discurso é que é preciso ser o primeiro. Vemos um pouco disso com [os tenistas] João Fonseca e Bia Haddad, por exemplo, que são talentos jovens”, disse Machado.

Apesar de ser considerado o maior enxadrista brasileiro, a história de Mecking não é tão difundida como a de outros nomes com os quais ele era colocado em par de igualdade, como Pelé.

Para o biógrafo, há algumas razões por trás disso. Uma delas foi a falta de uma revista especializada em xadrez que apresentasse as partidas de Mequinho para que novos enxadristas o conhecessem.

Outra diz respeito à figura controversa do enxadrista. Ele chegou a deixar de lado em diferentes ocasiões a equipe brasileira de xadrez, cancelava suas participações em eventos e o fervor religioso fez com que muitos o considerassem responsável pela propagação da imagem de “enxadrista maluco”.

“É difícil falar em um legado enxadrístico, já que os jogadores com os quais eu conversei não estudaram tanto os jogos do Mequinho. Mas ele mostrou que é possível formar um grande jogador de xadrez e como nós não conseguimos dar estrutura necessária para o desenvolvimento de atletas de elite, como nós não conseguimos aproveitar esses grandes talentos”, afirmou.

O Brasil no xadrez

O Brasil viveu um “boom” no interesse pelo xadrez com a vitória de Mecking em 1972. Novos clubes de xadrez surgiram e os tabuleiros do jogo se esgotavam nas lojas rapidamente.

Mequinho tentou aproveitar a situação para discutir o ensino obrigatório do xadrez nas escolas. Alguns municípios adotaram na época a atividade em seus currículos, como Petrópolis (RJ) e Osasco (SP), enquanto outros colégios brasileiros discutiam a medida.

A implementação do esporte como matéria obrigatória nas escolas não foi muito além. Até hoje, projetos de lei como o PL 2.993/2021 – que tornaria obrigatório o ensino do xadrez nas escolas, mas que está em revisão desde dezembro de 2021 na Câmara dos Deputados – não chegaram a sair do papel.

Em outros países, a situação foi outra. Na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), por exemplo, a prática foi transformada em política de Estado, com treinamento para crianças e incentivos profissionais.

240

é a quantidade de grandes mestres da Rússia, segundo ranking da Fide

15

é a quantidade de grandes mestres brasileiros, também de acordo com a Fide

Machado explica que o Brasil nunca criou com êxito programas de incentivo ao esporte, como fez com outras modalidades como vôlei e ginástica artística.

“O Mequinho foi um talento improvável. Ele não foi resultado de um programa de incentivo, ou da criação de uma escola de xadrez brasileira”, disse o biógrafo.

Outros fatores, como o fato de não ser uma profissão bem remunerada e que não tem uma recompensa social expressiva, também fazem com que pessoas se afastem da atividade.

“Também há uma carência de torneios com pontuação elevada [que ajudam o enxadrista a se qualificar para outras disputas] realizados no país, o que torna caro se desenvolver no esporte”, explica.

Apesar disso, é possível que a internet ajude novas pessoas a se interessar pelo esporte, segundo o jornalista. 

No YouTube, crescem os canais brasileiros que abordam o tema, como Raffael Chess, com quase 500 mil inscritos, e o do Grande Mestre Rafael Leitão. Os vídeos produzidos por eles analisam jogadas anteriores e ensinam elementos das partidas.

Além dos profissionais, outros produtores de conteúdo que não eram dedicados ao xadrez – como os youtubers Cellbit, Luba e Calango – também produziram vídeos sobre o jogo, especialmente durante a pandemia de covid-19, quando o interesse pelo esporte aumentou.

Foi durante a pandemia que a Netflix lançou a produção “O gambito da rainha” (2020), que conta a história da jovem Beth Harmon, prodígio do xadrez que tenta se tornar a melhor enxadrista do mundo. Na época, ela se tornou a minissérie original mais assistida da plataforma.

O streaming continua a investir no assunto, lançando documentários sobre a enxadrista húngara Judit Polgár (“A rainha do xadrez”) e o drama de Magnus Carlsen e Hans Niemann em “Untold: Chess Mates”, com lançamento previsto para 7 de abril, abordando a polêmica de trapaça de 2022.

“Um dos streamings mais poderosos do mundo está investindo em conteúdos relacionados ao xadrez, então há uma percepção de que existe interesse. Acho que há muitas pessoas novas chegando a essas produções e que há um interesse crescente por xadrez no Brasil, mas é difícil medir o quanto isso se transforma em pessoas que pretendem se desenvolver no esporte”, disse Machado.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que Mequinho retornou ao Brasil do torneio de Hastings em 13 de janeiro, mas ele voltou em 18 de janeiro. Também, que o Torneio de Candidatos ocorreu em 1976, que o médico que o atendeu era de Boston e que o Brasil possui 14 grandes mestres. No entanto, o Torneio aconteceu em 1977, o médico era de Houston e, atualmente, o país possui 15 grandes mestres. As informações foram corrigidas às 15h32 do dia 10 de março de 2026.